SEM�NTICA HIST�RICA
Afr�nio Garcia (UERJ)
1- INTRODU��O
Muitos fil�logos e estudiosos da hist�ria da l�ngua esquecem-se, durante o transcurso de suas pesquisas, de que assim como as palavras mudam sua forma e sua sintaxe atrav�s dos tempos, tamb�m seu significado vai se modificando com o passar dos anos, em decorr�ncia de uma s�rie de fatores sociais e culturais.
Na minha pesquisa atual, intitulada �Relativismo ling��stico: rela��es entre sem�ntica, cultura e sociedade�, tenho me dedicado ao estudo das diferen�as de significa��o das palavras da l�ngua portuguesa atual n�o s� em rela��o � sua significa��o em outros est�gios da nossa l�ngua, como tamb�m em rela��o � significa��o de palavras sin�nimas em outras l�nguas, tentando descobrir as diferentes nuances de significa��o que estas palavras possuem em outros est�gios da l�ngua ou em outras l�nguas, atrav�s da compara��o de seus contextos sint�tico-sem�nticos e, quando necess�rio, pragm�ticos.
Na tentativa de determinar os motivos que levam a essas diferentes acep��es de uma mesma palavra atrav�s dos tempos, ou de palavras sin�nimas em l�nguas estrangeiras, costumo encontrar fatores sociais, culturais, antropol�gicos e hist�ricos interessant�ssimos, que muito engrandeceriam a pesquisa filol�gica, se os ilustres pesquisadores normalmente n�o esquecessem do �detalhe sem�ntico� nas suas pesquisas.
Este trabalho tem por finalidade rememorar, ou at� apresentar, conforme for o caso, as principais mudan�as sem�nticas, suas caracter�sticas mais marcantes e seus fatores determinantes, com profus�o de exemplos explanat�rios, chegando mesmo a discorrer sobre a hist�ria desta ou daquela palavra, cuja hist�ria confunda-se com a pr�pria hist�ria da humanidade, com o objetivo prec�puo de despertar a aten��o dos senhores pesquisadores e fil�logos para a import�ncia e dimens�o que a sem�ntica hist�rica tem no estudo dos textos da l�ngua portuguesa e da pr�pria l�ngua.
O suporte te�rico para este trabalho �, quase que exclusivamente, o excelente livro �Sem�ntica: uma introdu��o � ci�ncia do significado� de Stephen Ullmann, at� hoje a melhor obra a tratar de sem�ntica hist�rica e mudan�a sem�ntica.
2- POLISSEMIA
A principal causa da mudan�a sem�ntica, ou seja, da mudan�a de significado de uma palavra atrav�s dos tempos, � a polissemia, que consiste no fato de uma determinada palavra ou express�o adquirir um novo sentido al�m de seu sentido original (do grego polissemia = muitas significa��es). A seguir, veremos alguns exemplos que ilustram como esse processo que leva � mudan�a sem�ntica � extremamente produtivo e diversificado.
1) A palavra gato, do latim catu(m), servia para indicar originalmente um tipo de felino de pequenas dimens�es; como este felino tem o h�bito de andar silenciosa e furtivamente, a palavra gato adquiriu, por um processo meton�mico de associa��o entre o modo de andar de um ladr�o e de um gato, o sentido de ladr�o, gatuno; mais modernamente, um outro tipo de associa��o meton�mica, entre a beleza de um gato e de seus movimentos e a beleza de um jovem, gerou para a palavra gato um novo significado, de homem belo, com seu feminino gata; por �ltimo, a id�ia de gato como ladr�o associada ao fato de que o felino gato gosta de escalar postes e fios levou ao surgimento de mais um novo sentido para essa palavra: instrumento para roubar luz dos fios ou postes.
2) A palavra fazenda, do latim vulgar fac(i)enda, significava originalmente as coisas que devem ser feitas; ainda no portugu�s arcaico passou a designar n�o mais as coisas a serem feitas, mas as coisas j� feitas por algu�m ou em algum lugar; desse segundo sentido, desenvolvem-se dois outros sentidos, de conjunto de bens ou haveres, sentido em que aparece em Vieira, visto que quando algu�m faz algo, esse algu�m provavelmente passa a possuir o que fez ou o produto da venda daquilo que fez, ou de mercadorias ou produtos de uma determinada pessoa, povo ou regi�o, sentido em que aparece constantemente no s�culo XVIII; dessas duas acep��es da palavra fazenda, desenvolve-se uma quarta, de recursos financeiros do poder p�blico, at� hoje presente em determinadas express�es, como Minist�rio da Fazenda, Secretaria da Fazenda; da id�ia de fazenda como mercadoria ou produto desenvolvem-se dois outros significados: grande propriedade rural, onde s�o gerados v�rios produtos agr�colas, e pano ou. tecido, visto que com a chegada da Revolu��o Industrial o primeiro produto, a principal mercadoria a ser produzida em larga escala foi o tecido (vale a pena mencionar aqui o uso do termo fabric do ingl�s com o mesmo significado).
3) A palavra olho, do latim oculu(m), indicava originalmente o �rg�o da vis�o; com o passar dos tempos, atrav�s de in�meras associa��es meton�micas e metaf�ricas, passou a indicar tamb�m v�rias coisas que tivessem a id�ia de c�rculo, de orif�cio ou de centro, tais como olho da batata (calombos circulares da batata), olho da letra (espa�o circular em letras como b ou p), olho do furac�o (o centro do v�rtice de um furac�o), olho d��gua (um buraco, geralmente circular, que se enche de �gua), olho do queijo (buracos que se formam na fermenta��o de determinados queijos), botar no olho da rua (id�ia de centro da rua), etc.
4) A palavra estilo, do latim stilu(m), designava originalmente uma pequena haste usada para escrever, um tipo de caneta antigo; em associa��o com essa id�ia de escrita, desenvolve-se um novo sentido para estilo, que passa a indicar a maneira espec�fica de escrever ou falar de uma pessoa ou de um grupo de pessoas: estilo conciso, estilo afetado, estilo did�tico, etc.; a partir desse segundo sentido, desenvolve-se a id�ia de estilo como precis�o ou per�cia no escrever: ele escreve com estilo; tamb�m a partir do sentido de maneira de escrever, desenvolve-se um quarto sentido, mais nitidamente liter�rio, de caracter�sticas espec�ficas de um autor ou grupo de autores, como quando falamos do estilo de Machado de Assis ou dos estilos de �poca; como h� at� bem pouco tempo o ato de escrever era um apan�gio da classe dominante, sendo a maioria do povo analfabeta, a palavra estilo adquire um novo sentido, de refinamento, de bom gosto, como em m�veis de estilo, um homem de estilo; por �ltimo, o sentido original da palavra estilo, de pequena haste, � recuperado na palavra estilete, indicando punhal fino, pequena haste de grafite, etc.
Repare-se que, em certos casos, os novos significados passaram a existir, mas a palavra conservou seu significado original, como em gato e olho, enquanto que, em outros casos, o significado original da palavra deixa de existir ou de ser usado, como em fazenda e estilo.Se adotarmos uma postura restritiva, podemos dizer que, no primeiro caso temos uma varia��o sem�ntica, quando dois ou mais significados concorrem numa mesma palavra, e que s� no segundo caso temos realmente uma mudan�a sem�ntica, quando o significado original da palavra deixa de existir (ou de ser usado) e ela passa a ter somente o(s) novo(s) significado(s). Mas essa divis�o entre varia��o sem�ntica e mudan�a sem�ntica � um mero detalhe, j� que em ambos os casos a palavra desenvolve um novo significado.
Mais importante do que ficarmos divagando sobre a diferen�a entre varia��o sem�ntica e mudan�a sem�ntica, no entanto, � identificarmos os processos que levam a essa varia��o ou mudan�a sem�ntica, como veremos a seguir.
3- METON�MIA E MET�FORA
Os processos mais comuns que levam � mudan�a no significado de uma palavra s�o as meton�mias e as met�foras. Invertemos propositalmente a ordem em que esses termos s�o apresentados nos comp�ndios de sem�ntica porque a meton�mia � muito mais comum como processo propiciador da mudan�a de significado do que a met�fora. Isto porque, de acordo com a defini��o tradicional, a met�fora � um processo que envolve uma similaridade de significados, ao passo que a meton�mia � um processo que envolve uma contig�idade de significados. Ora, para termos uma similaridade entre dois significados temos que ter uma rela��o mais ou menos r�gida, em que um significado se assemelhe de uma forma razoavelmente n�tida ao outro; j� para termos uma rela��o de contig�idade entre dois significados basta que o feixe de fatores constituintes de um dos significados tenha algo a ver com o feixe de fatores constituintes do outro significado, ou seja, que os dois significados tenham algum ponto em comum. Esse ponto em comum pode assumir in�meras formas, abranger v�rios tipos de rela��o, como parte-todo, continente-conte�do, lugar-coisa, coisa-caracter�stica, causa-efeito, formas, objetivos ou fun��es comuns, e tantas outras aproxima��es que nossas mentes fazem constantemente entre um significado e outro na tentativa de melhor agrupar e apreender a enorme realidade, como disse Drummond.
Tamb�m n�o separamos a met�fora da meton�mia porque, embora em algumas ocasi�es a distin��o entre met�fora e meton�mia seja f�cil e n�tida, outras h� em que mesmo um professor tarimbado e competente fica em d�vida sobre como classificar a associa��o que se estabelece entre dois significados. Por exemplo, quando Drummond fala �peixes circulando sob o navio que leva essa mensagem� em que o navio remete, nitidamente, para o poema, temos uma meton�mia, em que o autor aproxima a fun��o do navio (ir de um porto a outro) da fun��o do poema (ir de uma alma a outra), ou temos uma met�fora, em que o poema � semelhante a um navio, indo de um lugar ao outro no mar da vida. Dific�limo optar por esta ou aquela interpreta��o.
A meton�mia � bem mais produtiva do que a met�fora como processo modificador do significado das palavras. Uma das suas ocorr�ncias mais freq�entes � na cria��o de nomes para novos objetos, conceitos ou ramos do conhecimento, e � interessante notar que muitas vezes, embora estas novas denomina��es sejam extremamente transparentes, raros s�o aqueles que percebem sua origem como veremos nos exemplos abaixo.
5) A palavra avi�o, do franc�s avion, significava ave grande; quando foi inventado um aparelho com asas que voava, nada mais normal do que cham�-lo de avi�o.
6) A palavra tela indicava um tipo de tecido; quando o cinema foi inventado, ele era projetado num ret�ngulo deste tecido montado sobre uma base, que passou a ser chamado, muito simplesmente, de tela; com a chegada da televis�o e outras formas de v�deo, o termo tela generalizou-se para designar a por��o plana do aparelho onde se projetam as imagens.
7) A palavra caneta foi inicialmente usada para indicar um pequeno tubo, uma pequena cana, � qual se ajustava uma ponta para escrever; o uso do termo caneta se generalizou, mas praticamente ningu�m, a n�o ser um pesquisador de sem�ntica ou hist�ria da l�ngua, o associa a uma pequena cana.
8) A palavra m�sculo designava um pequeno rato, sendo o diminutivo do latim mus (que deu origem ao mouse do ingl�s); como os m�dicos da Idade M�dia, ao olharem para o m�sculo exposto de um paciente, o acharam parecido com um filhote de rato, sem p�lo, deram-lhe o nome de musculu(m), que se mant�m em v�rias l�nguas at� os dias de hoje.
J� as met�foras s�o bem menos produtivas, talvez por serem mais profundas e po�ticas, na evolu��o de novos significados das palavras. Tamb�m nesse caso, a maioria dos falantes muitas vezes n�o faz id�ia da origem da palavra, embora seja bastante �bvio, como veremos nos exemplos seguintes.
9) A palavra ferina tinha o sentido de pr�prio de fera, feroz; hoje em dia � muito comum se ouvir falar em linguagem ferina, cr�tica ferina, etc., mas a maioria dos falantes do portugu�s a entende como maldosa ou cruel, sem associa-la a fera.
10) A palavra terno prov�m do latim teneru(m), que tamb�m deu tenro, significando originalmente tenro, mole; da imagem metaf�rica de uma pessoa mole, que se deixa paralisar pelos sentimentos, sem vitalidade, surgiu o significado atual de terno, como afetuoso, brando.
11) A palavra porco indicava originalmente uma esp�cie de animal e passou a indicar, por um processo metaf�rico, as pessoas que s�o sujas como um porco.
4- MUDAN�AS PEJORATIVAS
Muitas mudan�as de significados s�o pejorativas, ou seja, palavras de sentido positivo ou neutro adquirem um matiz pejorativo. Essas palavras s�o importantes por retratarem os h�bitos, os pensamentos e os preconceitos de uma determinada �poca, como veremos nos exemplos que se seguem.
12) A palavra vil�o tinha o significado original de habitante de uma vila; devido ao preconceito que as pessoas da �poca tinham contra os pobres, que moravam nas vilas, a palavra vil�o foi desenvolvendo, pouco a pouco, o sentido de grosseir�o, malvado.
13) A palavra rapariga tinha (e, em Portugal, ainda tem) o sentido de mo�a, mulher jovem; como muitos homens abastados de outrora tinham raparigas como concubinas, o portugu�s do Brasil passa a diferenciar mo�a (necessariamente virgem) de rapariga (que podia ou n�o ser virgem), ficando o termo rapariga, principalmente no Nordeste, quase como sin�nimo de prostituta.
14) A palavra criado tinha o sentido de uma pessoa, �rf� ou filha de pobres, que era criada como filho por uma fam�lia; como a hipocrisia e a crueldade que sempre caracterizaram a sociedade brasileira transformava esse �filho adotivo� num empregado dom�stico sem sal�rio, a palavra criado adquire o sentido de servi�al dom�stico.
�s vezes, as mudan�as pejorativas t�m por origem um eufemismo (palavra usada em lugar de outra, para atenuar seu sentido negativo ou ofensivo), que perde sua raz�o de ser, como � o caso dos exemplos seguintes.
15) A palavra cretino, usada hoje em dia para indicar uma pessoa de pouca intelig�ncia ou est�pida, prov�m de uma palavra francesa que significava crist�o; como era costume usar-se o eufemismo pobre crist�o ou crist�o para designar os loucos, a palavra adquiriu aos poucos o sentido de louco e finalmente seu sentido atual.
16) A palavra idiota significava simplesmente diferente; como era usada para indicar os deficientes, principalmente os deficientes mentais (� maneira da palavra especial hoje em dia), aos poucos adquiriu esse sentido, de deficiente mental, de est�pido.
5- MUDAN�AS AMELIORATIVAS
Um outro tipo de mudan�a de significado � aquela que Ullmann chama de ameliorativa, em que uma palavra de sentido negativo (ou neutro) adquire um sentido positivo. Normalmente, tratam-se de termos grosseiros ou jocosos que s�o atenuados com o passar dos anos, como podemos constatar abaixo.
17) A palavra perna indicava originalmente perna de animal (equivalente aos termos atuais pernil ou pata); devido ao seu constante uso em rela��o �s pernas do seres humanos, ela adquire o sentido de perna humana ou animal, que mant�m at� hoje.
18) A palavra barriga era pejorativa, significando inicialmente barrica (pequeno barril); com o tempo ela passa a indicar o ventre, seja magro ou gordo.
19) A palavra marechal indicava t�o somente o criado das cavalari�as; com o tempo, ela vai ganhando import�ncia, at� significar o posto m�ximo do ex�rcito.
6- MUDAN�AS DEVIDAS AO TABU
Muitas vezes, uma palavra deixa de ser usada devido a ter-se tornado um tabu, uma palavra proibida, seja por medo, por delicadeza ou por dec�ncia. Nesses casos, outra palavra, geralmente um eufemismo, vem substituir a palavra que n�o pode ser dita, fazendo com que esta nova palavra desenvolva um novo significado. Seguem alguns exemplos que ilustram bem esse processo.
20) A palavra diabo, do grego diabolon, possu�a originalmente o sentido de opositor, sendo usada em decorr�ncia do tabu de medo para evitar que fosse dito o nome do ente diab�lico (da mesma forma que, hoje em dia, as igrejas crist�s fundamentalistas usam o eufemismo o Inimigo); com o tempo esse eufemismo adquire o sentido de ente diab�lico.
21) As palavras vagina e �nus, oriundas das palavras latinas vagina e anulus, significavam respectivamente vagenzinha e anelzinho, eufemismos devidos ao tabu de dec�ncia; atualmente, elas se tornaram termos cient�ficos amplamente difundidos, mas a segunda come�a a ser alvo do mesmo tabu de dec�ncia, n�o sendo mais admiss�vel numa conversa polida.
22) A palavra miser�vel, por seu car�ter pejorativo muito forte, passa a ser substitu�da, devido ao tabu de delicadeza, pela palavra exclu�do, que pouco a pouco vai adquirindo o significado de miser�vel.
23) A palavra lepra tamb�m passa a ser substitu�da pela palavra hansen�ase devido ao tabu de delicadeza.
7- ESPECIALIZA��O DO SIGNIFICADO
Certas palavras desenvolvem um novo sentido quando s�o postas num contexto diferente daquele em que costumavam ser empregadas, naquilo que Ullmann chama de especializa��o de significado, como podemos constatar nos exemplos abaixo.
24) A palavra companhia significava simplesmente o oposto de solid�o; quando utilizada no �mbito do com�rcio, passa a ter o significado de empresa que t�m v�rios donos.
25) A palavra a��o indicava um movimento para realizar algo; no �mbito jur�dico, passa a indicar um tipo de processo, enquanto que no �mbito financeiro passa a indicar um documento de uma opera��o de risco.
26) A palavra foca indica um mam�fero aqu�tico; empregado no �mbito jornal�stico, significa rep�rter inexperiente.
8- AMPLIA��O DE SIGNIFICADO
Certas palavras passam de um significado original mais restrito para um significado mais geral, como podemos constatar pelos exemplos abaixo.
27) A palavra arm�rio indicava na Idade M�dia um lugar espec�fico para se guardar as armas; por um processo de amplia��o de significado, ela passa a designar qualquer m�vel destinado a guardar coisas.
28) A palavra paquerar designava especificamente observar pacas com intuito de ca�ar ; num processo de amplia��o de significado, passa a indicar observar mulheres com interesse.
29) A palavra cl�ssico indicava apenas os autores e obras que eram lidos em classe (sala de aula); por um processo de amplia��o de significado passa a indicar qualquer autor ou obra aclamado ou famoso.
9- RESTRI��O DE SIGNIFICADO
Num processo inverso ao descrito acima, algumas vezes palavras de significado geral passam a ter um significado mais restrito, como podemos verificar pelos exemplos abaixo.
30) A palavra minist�rio significava originalmente o of�cio de algu�m, aquilo que uma pessoa devia fazer; com o tempo, h� uma restri��o de significado e a palavra minist�rio passa a indicar somente o of�cio de um sacerdote ou o lugar dos ministros.
31) A palavra paix�o indicava qualquer emo��o profunda, positiva ou negativa (da� a Paix�o de Cristo); atualmente, houve uma restri��o de significado e o termo paix�o passou a indicar apenas emo��o profunda positiva.
32) A palavra cachorro, proveniente do basco, indicava qualquer tipo de filhote; por um processo de restri��o de significado, passa a indicar filhote de c�o e o pr�prio c�o.
10- EQU�VOCOS DE INTERPRETA��O
Uma das causas mais estranhas e fascinantes da mudan�a de significado � aquela que ocorre devido a um equ�voco na interpreta��o da palavra. Como neste tipo de situa��o cada caso � um caso, vejamos alguns bem interessantes.
33) A palavra missa n�o tinha nada a ver com a cerim�nia religiosa, constituindo o partic�pio passado do verbo mittere (terminar). Como a missa era sempre celebrada em latim e sempre terminava com a fala �Ite missa est� (Esta (cerim�nia) est� terminada), o povo entendeu erroneamente que a palavra missa era o nome da cerim�nia, significado que se mant�m at� hoje.
34) A palavra acusativo para designar o objeto direto deriva de um erro de leitura da palavra causativo que perdura at� hoje.
35) A palavra floresta tinha o significado original de �rea do lado de fora da cidade e era escrita foresta (conferir o ingl�s forest e o franc�s for�t); como a parte de fora da cidade normalmente era arborizada, o povo entendeu que ela era derivada de flora e significava mata, da� sua forma e significado atuais.
11- PALAVRAS QUE CONTAM HIST�RIAS
Certas palavras t�m uma hist�ria t�o interessante que vale a pena cont�-las; elas s�o parte da pr�pria hist�ria e nos ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos e o mundo do qual viemos. Deleitemo-nos, pois, com essas palavras que contam hist�rias.
36) A palavra escravo serve para que tenhamos uma vis�o mais ampla do problema da escravid�o, muitas vezes situada apenas em termos da escravid�o negra. Faz-se necess�rio entender que a escravid�o era uma pr�tica plenamente aceita, assim como a guerra e o saque, em tempos bem mais cru�is que os atuais. A escravid�o primordial, que se estendeu por toda a Antig�idade, era basicamente uma escravid�o de homens brancos, o que � cabalmente demonstrado pelo fato de a palavra escravo ser oriunda de sclavu(m), que por sua vez prov�m de slavu(m), que significava eslavo, um povo que vivia nas fronteiras do Imp�rio Romano e era freq�entemente capturado para servir de escravo, da� a evolu��o do significado da palavra para o significado que permanece at� hoje.
37) A palavra rastaquera, do franc�s rastra coeur, indicava originalmente o novo rico, o afetado, que arrastava o cora��o (rastra coeur) pela Europa e desprezava as coisas e costumes do Brasil; o fato de ela ter evolu�do para indicar indiv�duo sem valor, sem qualidade, mostra bem o estofo de que eram feitos esses �emergentes� de outrora.
38) A palavra amor tinha originalmente um sentido passivo, indicando a qualidade de ser amado; ser� a influ�ncia germ�nica, com sua sociedade que valorizava bem mais as mulheres do que a sociedade romana, que transformar� o sentido da palavra amor em ativo, indicando o sentimento de amar.