Decadentismo
O decadentismo foi um estado de espírito e gosto que se manifestou pela primeira vez na França no final do século XIX, afetando principalmente a produção literária, mas também os costumes e as orientações morais da burguesia e da baixa classe média, como um desenvolvimento extremo do Romantismo caracterizada por uma visão estetizante da vida, erudita e elaborada, e pelo culto do individualismo, do excesso e do exótico, pela exploração de zonas desconhecidas da sensibilidade, pela descoberta do subconsciente, que a arte era chamada a expressar em novas formas irracionais, em reação direta ao naturalismo, bem como ao positivismo e realismo.[1] Representado principalmente pelos poetas franceses Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé, o termo Décadence designa exclusivamente o movimento de finais do século XIX, distinto do Simbolismo, embora dele derivado – cuja influência viria a estender-se a autores tão diversos como Gabriele D'Annunzio, Marcel Proust, James Joyce e Thomas Mann, bem como a todas as vanguardas históricas; nos países anglo-saxónicos, é sinónimo de Esteticismo e Fin de Siècle, sendo frequentemente associado à "década de 1890", os anos em que Oscar Wilde e os seus companheiros trabalharam. Na Alemanha, funciona como a ponte técnica entre o Naturalismo e o Simbolismo, enquanto na Rússia integra-se no vasto movimento do Modernismo que se manifestou entre 1890 e 1917 – o mesmo conceito empregado para caracterizar a renovação liderada pelo Simbolismo entre 1896 e 1914 nas áreas de expressão espanhola.[2][1]
Visão geral
[editar | editar código]Uma das melhores expressões do movimento decadentista é encontrada no verso de Verlaine: "Eu sou o império ao fim da decadência". De fato, Verlaine esteve durante algum tempo à frente do movimento, especialmente depois da publicação de Os poetas malditos (1884).
O decadentismo foi a antítese do parnasianismo e de sua doutrina inspirada no ideal clássico da "arte pela arte", apesar de Verlaine, um dos expoentes máximos do decadentismo, ter sido um parnasiano. A fórmula pictórica e escultórica dos parnasianos ut pictura poesis, segundo a lição de Horácio, é substituída no decadentismo pelo ideal de uma poesia que "tende à forma de música".
Paul Bourget explicava, a propósito de Baudelaire, que a ideia de decadentismo vêm do insulamento das frases ou versos num romance. Isto é, cada frase passa a valer como organismo independente e não como parte de um todo.[3]
O decadentismo arremete contra a moral e os costumes burgueses, evoca a evasão à realidade cotidiana, exalta o heroísmo individual e infeliz, explorando as regiões mais extremas da sensibilidade e do inconsciente.
Seu esteticismo foi acompanhado, em geral, de um exotismo e interesse por países distantes, especialmente os orientais, que exerceram grande fascinação em autores como os franceses Pierre Louÿs (em sua novela "Afrodita", de 1896, e em seus poemas "As canções de Bilitis", de 1894) e Pierre Loti e o inglês Richard Francis Burton, explorador e tradutor de uma polêmica versão de "As mil e uma noites".
Mas a máxima expressão do decadentismo é constituída pelo romance "À rebours" ("Às avessas"), escrito em 1884 pelo francês Joris-Karl Huysmans, considerado um dos escritores mais rebeldes e significativos do fim de século. O romance narra o estilo de vida excêntrico do duque Jean Floressas des Esseintes, que se tranca em uma casa de campo para satisfazer o propósito de "substituir a realidade pelo sonho da realidade". Esse personagem se converteu no modelo exemplar dos decadentes, a ponto de personagens como Dorian Gray, de Oscar Wilde, e Andrea Sperelli, de Gabriele D'Annunzio, serem considerados como "descendentes diretos" de Des Esseintes . "À rebours" foi definido pelo poeta inglês Arthur Symons como "o breviário do decadentismo".
Também são considerados decadentes os pós-simbolistas franceses Jean Lorrain, Madame Rachilde, Octave Mirbeau e, de certa maneira, também Auguste Villiers de L'Isle-Adam, Stéphane Mallarmé e Tristan Corbière.
A revista "Le Décadent", fundada en 1886 por Anatole Baju, serviu como veículo de expressão do movimento.
O decadentismo na Europa
[editar | editar código]Na Inglaterra, aparecem como representantes do decadentismo as figuras de Oscar Wilde, especialmente em sua novela O retrato de Dorian Gray (1891), e seu mestre Walter Pater, que publicou uma novela considerada seminal para a sua geração, "Marius the Epicurean" (1885), além de nomes como Arthur Symons, Ernest Dowson e Lionel Johnson.
O italiano Gabriele d'Annunzio cultivou o elemento aristocrático típico do decadentismo, em seu romance "Il piacere" e em seus poemas cheios de sentimento, com uma escrita rica e sugestiva.
O decadentismo na Espanha e na América Latina
[editar | editar código]Espanha e América Latina também se deixaram influenciar por esta atitude estético-literária, e toda a poesia do fim de século responde aos ideais artísticos da "arte pela arte". Assim pode ser considerado o modernismo do nicaraguense Rubén Darío e do mexicano José Juan Tablada. O decadentismo artístico foi muito mais persistente na América: Amado Nervo, Leopoldo Lugones, Mariano Azuela, César Vallejo, Horacio Quiroga e outros llenaron muchos años de la vida literaria suramericana y en ellos la nota francesa nunca estuvo ausente.
Esta renovação estética adquiriu na Espanha matizes peculiares, e assim aparece nas obras decadentistas de Manuel Machado e da primeira fase de Juan Ramón Jiménez (en algunas obras como "Ninfeas", 1900), Francisco Villaespesa e Valle-Inclán, em especial em suas primeira obras, como seu livro de versos "Aromas de leyenda" (1907). São decadentistas ainda mal estudados os poetas Emilio Carrere e Alejandro Sawa, os novelistas Álvaro Retana, Antonio de Hoyos y Vinent e Joaquín Belda, assim como o contista peruano Clemente Palma.
Fim do decadentismo e influência posterior
[editar | editar código]Em 1890, a revista Mercure de France publicou um manifesto em defesa do simbolismo. A partir de então, a trajetória do decadentismo, entendido como movimento, pode-se considerar terminada. Anteriormente, em setembro de 1866, um artigo publicado por Jean Moréas em Le Figaro, mencionou pela primeira vez o simbolismo, referindo-se ao "bosque dos símbolos".
As teorias do simbolismo apareceram publicadas na revista Le symboliste, enquanto que os decadentes continuaram usando Le décadent como veículo para difundir suas teses. Formou-se assim a divergência entre os decadentes, complacentes experimentadores no campo dos sentidos e da linguagem, e os simbolistas, que buscam os valores absolutos da palavra e aspiram a expressar uma harmonia universal.
O decadentismo como ponto de encontro
[editar | editar código]Mais tarde, alguns críticos ampliaram o significado do termo decadente como oposto aos convencionalismos. Desta maneira, o decadentismo seria, em suas origens, antiacadêmico em pintura, antipositivista em filosofia, antinaturalista em literatura. Assim, várias tendências, escolas e orientações, diversas e distantes, acabaram por confluir e encontrar-se compreendidas sob a mesma etiqueta.
Genericamente se definem como decadentes aquelas formas de arte que superam ou alteram a realidade na evocação, na analogia, na evasão, no símbolo. A lista de nomes pode incluir Rainer Maria Rilke, Konstantínos Kaváfis, Paul Valéry, Marcel Proust, Franz Kafka, James Joyce, Oscar Wilde, Thomas Stearns Eliot ou mesmo movimentos de vanguarda como o surrealismo, o imagismo russo, o cubismo ou o realismo crítico de Thomas Mann.
Referências
- 1 2 Italo Pantani (2006). «Decadentismo». Enciclopedia Italiana - VII Appendice (em italiano). Istituto della Enciclopedia Italiana. Consultado em 12 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 10 de junho de 2026
- ↑ «Decadentismo». Itaú Cultural. 6 de fevereiro de 2015. Consultado em 2 de agosto de 2025
- ↑ Bobone, Carlos Maria (11 de novembro de 2018). «O cordeiro com nome de Lobo». Observador. Consultado em 2 de abril de 2020. Cópia arquivada em 11 de dezembro de 2023



