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Despolarização

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Despolarização celular é o deslocamento do potencial de membrana de uma célula em direção a valores menos negativos ou mais positivos no interior celular. Em eletrofisiologia, o termo é usado principalmente para descrever alterações elétricas em células excitáveis, como neurônios, miócitos e células do sistema de condução cardíaco, nas quais mudanças rápidas na permeabilidade da membrana plasmática a determinados íons podem gerar potenciais de ação.[1]

Em muitas células em repouso, o interior da membrana é eletricamente negativo em relação ao meio extracelular. Esse potencial resulta da distribuição desigual de íons, como K+, Na+, Cl− e Ca2+, e da permeabilidade seletiva da membrana a esses íons.[2][3] Em neurônios, o potencial de repouso costuma ser descrito em torno de −60 a −70 mV, embora esse valor varie conforme o tipo celular e as condições fisiológicas.[1]

Base iônica

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A despolarização ocorre quando há uma corrente líquida que torna o interior celular menos negativo. Isso pode resultar da entrada de cargas positivas, como Na+ ou Ca2+, da saída de cargas negativas, como Cl−, ou da redução de correntes que normalmente mantêm o potencial de membrana mais negativo, como correntes de saída de K+.[3]

O movimento de cada íon através da membrana não depende apenas de sua concentração relativa dentro e fora da célula. Ele é determinado pelo gradiente eletroquímico, que combina o gradiente químico, relacionado à concentração, com a força elétrica exercida pelo potencial de membrana. Além disso, a contribuição de cada íon para o potencial de membrana depende da permeabilidade da membrana a esse íon, isto é, da quantidade e do estado funcional dos canais iônicos disponíveis.[2][3]

Em muitos neurônios e fibras musculares esqueléticas, a fase ascendente do potencial de ação é causada principalmente pela abertura de canais de Na+ dependentes de voltagem, que permitem a entrada rápida de sódio no citoplasma.[4] Em células marca-passo cardíacas, como as do nó sinoatrial, a fase de despolarização do potencial de ação depende principalmente da entrada de Ca2+, enquanto a repolarização ocorre sobretudo pela saída de K+.[5]

A Na+/K+-ATPase mantém, ao longo do tempo, os gradientes de sódio e potássio ao transportar três íons Na+ para fora da célula e dois íons K+ para dentro, com gasto de ATP. Essa bomba contribui para a manutenção do potencial de repouso e dos gradientes iônicos, mas não é o principal mecanismo da repolarização rápida após um potencial de ação; essa fase depende principalmente da inativação dos canais de Na+ e da abertura de canais de K+.[6][1]

Potenciais graduados e potencial de ação

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Nem toda despolarização gera um potencial de ação. Despolarizações locais de pequena amplitude, chamadas potenciais graduados, podem ocorrer em dendritos, corpos celulares, receptores sensoriais e outras regiões da membrana. Esses potenciais variam em intensidade, podem se somar no tempo e no espaço e tendem a diminuir com a distância.[4]

Em células excitáveis, quando a despolarização alcança um limiar de excitabilidade, canais dependentes de voltagem podem se abrir em número suficiente para iniciar um potencial de ação. Em modelos didáticos de neurônios, esse limiar é frequentemente descrito em torno de −55 mV. Valores positivos, como cerca de +30 mV, correspondem ao pico ou ultrapassagem do potencial de ação em muitos exemplos didáticos, e não ao limiar.[4]

O potencial de ação é geralmente descrito como um evento do tipo "tudo ou nada": uma vez atingido o limiar, o aumento da intensidade do estímulo não produz um potencial de ação individual de maior amplitude, embora possa aumentar a frequência de disparo de potenciais de ação.[4]

Fases relacionadas ao potencial de ação

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A fase de despolarização do potencial de ação começa quando canais de Na+ dependentes de voltagem se abrem, permitindo a entrada rápida de sódio e tornando o interior da célula menos negativo. Esse influxo de cargas positivas favorece a abertura de mais canais de Na+, caracterizando um processo de retroalimentação positiva.[1]

A repolarização ocorre em seguida, quando os canais de Na+ se inativam e canais de K+ dependentes de voltagem se abrem. A saída de K+ torna o interior celular novamente mais negativo, aproximando o potencial de membrana do valor de repouso.[1][4]

Em muitos neurônios, os canais de K+ permanecem abertos por um curto período após a repolarização, o que pode tornar o potencial de membrana temporariamente mais negativo do que o potencial de repouso. Esse fenômeno é chamado hiperpolarização. Durante parte desse intervalo, a célula encontra-se em período refratário, no qual é impossível ou mais difícil iniciar um novo potencial de ação.[4]

Variações entre tecidos

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Embora o mecanismo clássico da despolarização seja frequentemente explicado com base no neurônio, diferentes tecidos apresentam características eletrofisiológicas próprias. Em neurônios e fibras musculares esqueléticas, a entrada de Na+ por canais dependentes de voltagem é central para a fase ascendente do potencial de ação.[1]

No músculo cardíaco, há diferenças entre células contráteis e células marca-passo. As células contráteis cardíacas apresentam rápida despolarização inicial associada à entrada de Na+, seguida por uma fase de platô relacionada à entrada de Ca2+ e à saída de K+. Já células marca-passo, como as do nó sinoatrial, não têm um potencial de repouso estável; nelas, a despolarização espontânea permite que o potencial de membrana atinja ritmicamente o limiar.[7][5]

Função fisiológica

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A despolarização é essencial para a comunicação elétrica entre neurônios, para a transmissão de sinais ao longo dos axônios e para o acoplamento entre excitação elétrica e resposta celular. Em neurônios, a propagação da despolarização permite que o potencial de ação percorra o axônio até terminações sinápticas, onde pode desencadear liberação de neurotransmissores. Em fibras musculares, a despolarização participa do acoplamento excitação-contração, processo que relaciona o sinal elétrico à contração da fibra muscular.[1][4]

Alterações nos canais iônicos, nos gradientes de Na+, K+, Ca2+ ou Cl−, ou na integridade da membrana podem modificar a excitabilidade celular. Por isso, a despolarização e os potenciais de ação são conceitos centrais em áreas como neurofisiologia, cardiologia, fisiologia muscular, farmacologia e eletrofisiologia clínica.[1]

Ver também

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Referências

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  1. 1 2 3 4 5 6 7 8 Grider, Michael H.; Jessu, Rishita; Kabir, Rian (8 de maio de 2023). Physiology, Action Potential. StatPearls (em inglês). Treasure Island, Flórida: StatPearls Publishing. Consultado em 17 de maio de 2026
  2. 1 2 Purves, Dale; Augustine, George J.; Fitzpatrick, David; et al. (2001). «The Ionic Basis of the Resting Membrane Potential». Neuroscience (em inglês) 2 ed. Sunderland, Massachusetts: Sinauer Associates. Consultado em 17 de maio de 2026
  3. 1 2 3 Alberts, Bruce; Johnson, Alexander; Lewis, Julian; et al. (2002). «Ion Channels and the Electrical Properties of Membranes». Molecular Biology of the Cell (em inglês) 4 ed. Nova Iorque: Garland Science. Consultado em 17 de maio de 2026
  4. 1 2 3 4 5 6 7 Betts, J. Gordon; Desaix, Peter; Johnson, Eddie; Johnson, Jody E.; Korol, Oksana; Kruse, Dean; Poe, Brandon; Wise, James; Womble, Mark; Young, Kelly A. (20 de abril de 2022). «12.4 The Action Potential» (em inglês). OpenStax. Consultado em 17 de maio de 2026
  5. 1 2 «16.3 Conduction of Electrical Impulses» (em inglês). OpenStax. 29 de maio de 2024. Consultado em 17 de maio de 2026
  6. ↑ Purves, Dale; Augustine, George J.; Fitzpatrick, David; et al. (2001). «Functional Properties of the Na+/K+ Pump». Neuroscience (em inglês) 2 ed. Sunderland, Massachusetts: Sinauer Associates. Consultado em 17 de maio de 2026
  7. ↑ Betts, J. Gordon; et al. (20 de abril de 2022). «19.2 Cardiac Muscle and Electrical Activity» (em inglês). OpenStax. Consultado em 17 de maio de 2026