Temá
Temá
Tayma | |
|---|---|
Cidade | |
| Coordenadas: 27° 37′ N, 38° 30′ L | |
| Região | Tabuque |
| População | |
| • Total (2022) [1] | 37 579 hab. |
Temá (em hebraico: תֵּימָא; em grego clássico: Θαιμάν; romaniz.: Thaiman) ou Taimá (em árabe: تيماء; romaniz.: Taymāʾ) é um antigo oásis e cidade do noroeste da Arábia, atualmente situado na província de Tabuque, na Arábia Saudita. Localizado na margem ocidental do deserto de Nefude, a cerca de 400 quilômetros a noroeste de Medina, o oásis dispõe de abundantes recursos hídricos e encontra-se numa posição estratégica nas antigas rotas que atravessavam o norte da península. Sua ocupação humana remonta pelo menos ao IV milênio a.C., enquanto as primeiras referências escritas conhecidas à localidade datam do século VIII a.C..
A posição de Temá nas rotas comerciais entre o sul da Arábia, a Mesopotâmia e a Síria favoreceu seu desenvolvimento como importante centro de caravanas. No século VI a.C., adquiriu particular importância quando Nabonido, último rei do Império Neobabilônico, estabeleceu ali sua residência durante cerca de dez anos e fez do oásis sua segunda capital. Posteriormente, Temá esteve vinculada a diferentes poderes da região, entre eles os aquemênidas e nabateus, e tornou-se conhecida na tradição árabe pré-islâmica por suas fortalezas e por sua população judaica. Entre seus habitantes mais célebres figurou o poeta Samuel ibne Adia, senhor da fortaleza de Alablaque Alfarade, cuja fidelidade se tornou proverbial na literatura árabe.
Em 628, Temá submeteu-se pacificamente aos muçulmanos mediante o pagamento da jizia, permanecendo depois como um centro habitado e ponto de parada nas rotas do noroeste da Arábia. Geógrafos islâmicos medievais descreveram seus poços, palmeirais, jardins e produção agrícola, e seus recursos hídricos conservaram sua importância para viajantes e peregrinos. A partir do século XIX, o oásis atraiu viajantes e arqueólogos europeus, cujas explorações, juntamente com investigações posteriores, revelaram inscrições e vestígios que documentam sua longa história. Governada de forma semiautônoma pela família Rumane a partir do século XIX, Temá foi incorporada definitivamente ao domínio saudita em meados do século XX.
Geografia
[editar | editar código]Temá situa-se no noroeste da Arábia, atualmente na Arábia Saudita, a cerca de 27° 37' N e 38° 30' E. O oásis encontra-se aproximadamente 400 quilômetros a noroeste de Medina, 265 quilômetros a sudeste de Tabuque, a três jornadas de Hegra e a quatro de Uádi Alcura.[2] Situada a cerca de 800 metros acima do nível do mar, Temá constitui um amplo oásis dotado de abundantes recursos hídricos.[2] Suas águas subterrâneas acumulam-se e afloram numa área de aproximadamente 12–14 por 40–45 pés de profundidade e cerca de 18 por 60 pés de diâmetro, segundo a descrição reproduzida por Buhl e Bosworth.[3] O oásis ocupa uma bacia relativamente plana na margem ocidental do deserto de Nefude, a leste do Escudo Árabe Ocidental, que inclui a crista vulcânica de Harrate Aluairide. Ao norte do assentamento encontra-se uma grande sebca sazonal, formada a partir de um lago existente no início do Holoceno. No centro do oásis localiza-se o Poço de Hadaje, com aproximadamente 18 metros de diâmetro e circundado por palmeirais.[4]
História
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A ocupação humana de Temá antecede em vários milênios suas primeiras referências escritas. Investigações arqueológicas identificaram concentrações de artefatos de sílex associados à produção de contas que remontam ao IV milênio a.C., além de sítios da Idade do Bronze Média datados do início do II milênio a.C.. A maior parte da documentação epigráfica encontrada no oásis, constituída sobretudo por inscrições taimaicas e aramaicas, pertence ao I milênio a.C..[4] A história documentada de Temá remonta pelo menos ao início do II milênio a.C.. Uma caravana de Temá é mencionada num tablete cuneiforme datada de cerca de 740–730 a.C., e inscrições do período do rei assírio Senaqueribe (r. 705–681 a.C.) mencionam-na.[3] Segundo Azizova, as primeiras referências conhecidas a Temá encontram-se em tabuinhas acadianas do século VIII a.C., nas quais seus habitantes aparecem, como outros povos do norte da Arábia, associados à criação de animais e à vida nômade. O controle das rotas comerciais contribuiu para seu enriquecimento, e no século VI a.C. Temá havia se tornado um importante centro comercial na rota das especiarias que atravessava o norte da península. Fontes neoassírias documentam as relações entre a Assíria e os povos da Arábia desde o século IX a.C.. Em meados do século VIII a.C., um texto encontrado na região do médio Eufrates registra uma caravana procedente de Temá, e a localidade aparece posteriormente entre aquelas que pagaram tributo ao rei Tiglate-Pileser III (r. 745–727 a.C.). As fontes assírias e bíblicas apresentam Temá como um entreposto comercial, posição na qual rivalizou durante séculos com Dedã, situada mais ao sul.[4]
Temá alcançou particular importância durante o reinado de Nabonido, último rei do Império Neobabilônico. Com o objetivo de controlar a rota comercial do norte da Arábia, Nabonido transferiu-se de Harã para Temá e fez dela sua segunda capital entre aproximadamente 552 e 542 a.C..[2] Buhl e Bosworth registram que Temá foi sua residência durante dez anos, informação conhecida tanto por inscrições quanto por referências bíblicas.[3] Nesse período, o oásis tornou-se um dos centros do culto de Sim, divindade lunar venerada por Nabonido. O desenvolvimento econômico de Temá continuou durante o Período Aquemênida, e textos do Antigo Testamento do século VI a.C. apresentam-na como importante cidade de caravanas. As relações de Temá com os aquemênidas e, posteriormente, com poderes regionais como o Reino de Liiã são menos bem documentadas. Por volta de 400 a.C., durante o Período Mineu, Temá havia perdido sua posição predominante para Dedã.[4] Diversas inscrições em aramaico encontradas na região documentam a história posterior do oásis. Segundo Azizova, elas indicam que Temá passou ao domínio dos nabateus no século I a.C. e permaneceu sob sua autoridade durante o início da era cristã.[2] Buhl e Bosworth observam igualmente que, nos primeiros séculos da era cristã, Temá encontrava-se no âmbito nabateu e que numerosas inscrições em aramaico imperial e na antiga língua árabe setentrional foram encontradas no oásis.[3] Posteriormente, a localidade esteve sob domínio romano-bizantino.[4]
Às vésperas do surgimento do islã, Temá constituía uma das cidades do norte da Arábia, juntamente com Dumate Aljandal, Aila, Macna, Caibar e Uádi Alcura. A localidade aparece na poesia árabe pré-islâmica, inclusive em versos de Inru Alcaice ibne Hujer, Alaxa e outros poetas. Era particularmente conhecida por suas fortalezas, entre elas Alablaque Alfarade, pertencente a Samuel ibne Adia, poeta judeu e senhor da cidadela, cuja fortaleza adquiriu caráter proverbial na tradição árabe.[5][2] Como outros oásis do norte da Arábia, Temá possuía uma população judaica. Buhl e Bosworth afirmam que a região foi povoada por judeus imigrantes ou prosélitos e destacam Samuel ibne Adia entre seus habitantes.[5] A população judaica de Temá não se mostrou inicialmente hostil a Maomé, mas, quando soube que seus correligionários de Uádi Alcura haviam resistido aos muçulmanos, sofrido pesadas perdas e posteriormente se submetido mediante o pagamento da jizia, teria seguido o mesmo caminho. Em 7 A.H. (628), depois da conquista de Uádi Alcura e Fadaque, Temá submeteu-se pacificamente ao domínio islâmico mediante o pagamento da jizia.[2] As fontes divergem sobre o destino da população judaica de Temá durante o califado de Omar (r. 634–644). Segundo uma tradição reproduzida por Buhl e Bosworth, os judeus de Temá, assim como os demais judeus da Arábia, foram expulsos pelo califa.[5] Azizova, contudo, registra a existência de diferentes relatos e interpretações sobre a questão e considera mais correta a tradição preservada em algumas fontes antigas segundo a qual Omar permitiu que os habitantes de Uádi Alcura e Temá permanecessem em suas terras, por considerar essas localidades exteriores aos limites do Hejaz.[2]
No século X, os geógrafos islâmicos descreviam Temá como um dos principais centros habitados do noroeste da Arábia. Ibne Haucal considerava-a uma cidade desenvolvida, mais populosa que Tabuque e economicamente importante para os árabes da região.[2] Mocadaci descreveu-a como uma cidade bem irrigada, dotada de uma nascente, numerosos poços, jardins e palmeiras, com árvores de excelentes tâmaras, e mencionou uma mesquita situada no mercado. No século seguinte, Albacri destacou a riqueza de Temá em tâmaras, figos e uvas. Segundo sua descrição, a cidade era densamente povoada e possuía uma muralha com uma parasanga de extensão, que acompanhava um curso de água.[5] Albacri registra ainda que Temá era então habitada pelos ramos juainita e anrita dos taiítas. Nos períodos posteriores, seus recursos hídricos permitiram que conservasse importância como ponto de parada para viajantes provenientes da Síria na rota de peregrinação.[2] A partir de meados do século XIX, Temá passou a atrair a atenção de viajantes e arqueólogos ocidentais. Entre os que visitaram a região estiveram Georg August Wallin em 1848, Carlo Guarmani em 1864, Charles Doughty em 1877, Charles Huber em 1880 e Julius Euting em 1883.[6] Doughty descreveu o famoso poço de Hadaje, que irrigava os palmeirais do bairro central de Temá, bem como as ruas estreitas, casas cercadas por pomares, ruínas de templos e um edifício quadrangular com torres nos cantos. Ao procurar as ruínas de Alablaque Alfarade, que Iacute Alhamaui afirmava ainda serem visíveis em sua época, não conseguiu encontrar vestígios que pudesse identificar com elas.[5]
A descoberta que mais contribuiu para despertar o interesse arqueológico pela história antiga do oásis foi a chamada Pedra de Temá, inscrição aramaica do século V a.C. relacionada ao antigo culto religioso da cidade e levada por Euting ao Museu do Louvre em 1883. Investigações posteriores revelaram inscrições em aramaico, dadanítico, tamúdico e nabateu, além dos vestígios das fortificações urbanas e de construções como os palácios de Alablaque, Arradem e Hâmera, em sua maioria pertencentes ao período anterior à era cristã. A partir de 1830, Temá esteve sob o domínio de emires da família Rumane, conservando uma condição semiautônoma e passando repetidamente de um membro da família para outro.[6] Quando Doughty visitou o oásis em 1877, seus habitantes reconheciam a autoridade de Ibne Raxide, emir de Hail, mas continuavam a pagar uma contribuição anual de proteção a grupos nômades para garantir suas colheitas de tâmaras.[5] No final do século XIX, Temá era governada pela família Rumane como uma chefatura independente, mas associada aos raxídidas.[5] No século XX, o último emir de Temá, Abede Alcarime ibne Rumane, manteve boas relações com Abdalazize ibne Saúde, que então buscava unificar a península Arábica sob o domínio saudita. Depois do assassinato do emir por parentes próximos em 1950, Temá passou ao domínio saudita. A pavimentação da estrada Medina–Temá–Tabuque em 1958 reforçou sua posição como ponto de parada na rota para a Síria. Administrativamente, Temá passou a integrar a província de Tabuque.[6]
Referências
Bibliografia
[editar | editar código]- Azizova, Elnure (2012). «Teymâ». Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 41. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı. pp. 53–54
- Buhl, Fr.; Bosworth, C. E. (2000). «Taymāʾ». In: Bearman, P. J.; Bianquis, Th.; Bosworth, C. E.; Donzel, E. van; Heinrichs, W. P. The Encyclopaedia of Islam. X: T–U 2 ed. Leida: E. J. Brill. pp. 401–402. ISBN 90-04-11211-1
- «Taymāʾ». City Population. 2022. Consultado em 31 de agosto de 2026
- Olsen, Sandra L. (2010). «Tayma». Arabian Rock Art Heritage. The Application of Advanced Imaging Technology to Saudi Arabian Rock Art. Consultado em 31 de agosto de 2026

