|
Texto Anterior | Próximo Texto | Índice
GUERRA NA MÍDIA
Plano é evitar o avanço de "O Dia" no Rio e chegar à liderança no mercado de revistas em dez anos
Globo lança jornal e prepara ataque a "Veja'
MARIO CESAR CARVALHO
da Reportagem Local
ELVIRA LOBATO
da Sucursal do Rio
Começa hoje no Rio a primeira batalha de uma guerra que pode mudar o mapa da mídia. As Organizações Globo colocam nas bancas o jornal "Extra", uma tentativa de estancar o avanço de "O Dia". Desde dezembro último, o jornal "O Globo" é batido em circulação em seu principal mercado por "O Dia".
A segunda batalha está marcada para o próximo mês em um território bem mais amplo. A Globo lança uma revista semanal batizada de "Época" para disputar o mercado dominado pela "Veja".
É uma batalha de gigantes. As Organizações Globo controlam o maior grupo de comunicação do Brasil, cujo faturamento atingiu R$ 6,8 bilhões no ano passado, valor similar ao que a Fiat Automóveis faturou em 96. A Abril é a maior editora de revistas, com faturamento de R$ 1,6 bilhão em 97.
O alvo das Organizações Globo é a "Veja". "Nosso plano é conseguir a dominância no prazo de dez anos", disse à Folha Roberto Irineu Marinho, vice-presidente das Organizações Globo (leia entrevista abaixo).
Roberto Civita, presidente do grupo Abril e editor da "Veja", afirma que "tudo é possível" em dez anos, mas usa uma metáfora agrária para avisar que a tarefa não será fácil. "Revista é carvalho. Você está plantando grandes árvores, leva tempo. Não é como plantar chuchus", compara (leia entrevista abaixo).
O plano da Globo é ambicioso. O grupo investe US$ 690 milhões em 98 -US$ 500 milhões em TV paga e o restante em jornal e revista.
Hoje a Globo tem o virtual monopólio do mercado de TV aberta, no qual abocanha 73% da verba publicitária, e de TV paga, com 70% dos assinantes. A Folha é líder no mercado de jornais e a Abril domina o de revistas.
Derrota em casa
Gigantismo e ambição não foram suficientes para "O Globo" manter a liderança onde nasceu, o Rio. Em agosto passado, "O Dia" pulou à frente em circulação aos domingos.
Em dezembro, estendeu o domínio aos dias úteis. "O Globo" segue líder em publicidade.
A receita de "O Dia" mescla textos curtos, muita cor, sorteio de carros e preço baixo. O exemplar custa R$ 0,50, a metade de "O Globo". São os mesmos ingredientes do jornal que a Globo lança hoje.
Fórmula similar não garante os mesmos resultados, diz Fernando Portela, vice-presidente de "O Dia": "Não há lugar para mais um jornal no Rio. Acho que o lançamento do "Extra' pode aumentar a canibalização de "O Globo' ".
Modelo alemão
No caso da revista semanal, a Globo foi até a Alemanha buscar a fórmula com a qual pretende minar a "Veja". A nova revista é baseada na "Focus", publicação alemã lançada em 93 que atingiu uma média semanal de 807 mil exemplares no ano passado.
Ricardo Fischer, diretor-geral da Editora Globo, quer repetir essa performance no Brasil. "Época" começa a circular com 250 mil exemplares e pretende chegar aos 800 mil em 2003.
O entusiasmo da Globo com a nova revista é baseado em pesquisas que começaram há dez meses. Grupos de 20, 30 leitores comparavam "Veja", "Isto É" e reportagens das duas revistas apresentadas segundo o modelo da "Focus".
"Ganhamos de 16 a 0", conta Fischer. Há duas razões para a goleada, segundo ele: os leitores elogiavam a facilidade de leitura da "Focus" brasileira e criticavam o que consideravam o texto arrogante e o excesso de publicidade de "Veja". "Época" sairá com cem páginas de textos, contra 70 em média de "Veja".
A nova revista vai consumir US$ 40 milhões -US$ 25 milhões na revista e o restante na ampliação de uma gráfica- e pretende vitimar "Isto É". Segundo Irineu Marinho, não há mercado para uma terceira revista de informação.
Gabriel Rico, vice-presidente da Abril, diz que não está preocupado com a concorrência. " "Veja' tem 8,5 milhões de leitores por semana e compete com jornais dominicais e TV. É mais relevante a ida de Boni para o SBT do que a nova revista", diz, referindo-se ao ex-vice-presidente da Globo.
Domingos Alzugaray, diretor da Editora Três, que edita "Isto É", concorda que não há mercado para três revistas, mas diz que a vítima não será ele. "Não se faz revista só com poder econômico. Se fosse assim, o Bradesco teria as maiores revistas. Tem de ter talento".
Texto Anterior | Próximo Texto | Índice
|