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Gabinete do Império do Brasil

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Pedro de Araújo Lima, o político que por mais tempo exerceu a presidência do Conselho de Ministros.

O Gabinete ou Conselho de Ministros do Império do Brasil foi o órgão responsável pela direção do governo na monarquia constitucional brasileira durante o Segundo Reinado (1840–1889), sendo composto pelo Presidente do Conselho de Ministros e pelos ministros de Estado. Criado formalmente pelo Decreto n.º 523, de 20 de julho de 1847, institucionalizou a formação de ministérios com base em maiorias parlamentares e consolidou a prática do governo representativo no interior do sistema político imperial.[1][2]

Seu funcionamento estava subordinado ao Poder Moderador, prerrogativa exclusiva do imperador, que nomeava o chefe do gabinete, podia demiti-lo, dissolver a Câmara dos Deputados e convocar novas eleições. Esse mecanismo produziu uma dinâmica política na qual o Executivo não emanava diretamente da maioria legislativa, sendo posteriormente legitimado por meio do processo eleitoral, arranjo que a historiografia passou a caracterizar como um parlamentarismo às avessas.[3][4]

A alternância entre liberais e conservadores ocorreu de forma relativamente estável, mediada pela intervenção imperial e sustentada por um sistema eleitoral censitário e indireto que integrava as elites provinciais ao Estado. Esse modelo permitiu a consolidação de instituições representativas e a formação de uma classe política com experiência administrativa e parlamentar, ao mesmo tempo em que manteve uma participação política socialmente restrita e vinculada à ordem escravista.[5]

Considerado uma experiência singular de adaptação do parlamentarismo europeu às condições políticas e sociais do Brasil do século XIX, o Gabinete desempenhou papel central na construção do Estado imperial e na formação da cultura política brasileira, sendo frequentemente evocado no debate historiográfico e institucional sobre as formas de governo no país após a Proclamação da República.[6]

História

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Antecedentes (1822–1847)

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A Constituição brasileira de 1824 instituiu um sistema de monarquia constitucional representativa no qual os ministros de Estado eram nomeados diretamente pelo imperador e respondiam exclusivamente a ele. Não existia, nesse momento, a figura de um chefe de governo distinto do monarca, e o ministério funcionava como um conselho administrativo responsável pela execução das decisões imperiais.[7]

Durante o Primeiro Reinado, a instabilidade política e os conflitos entre o imperador e a Câmara dos Deputados evidenciaram a necessidade de mecanismos de articulação entre o Executivo e o Parlamento. A abdicação de Pedro I, em 1831, abriu caminho para a experiência regencial, marcada por sucessivas crises ministeriais e pela formação de gabinetes com apoio parlamentar variável, ainda sem um modelo institucionalizado.[8][9]

No período regencial, a prática política aproximou-se progressivamente do governo parlamentar, com a formação de ministérios sustentados por maiorias na Câmara e a crescente influência dos partidos em formação. A consolidação das bancadas políticas e a experiência da Regência Una contribuíram para o fortalecimento da ideia de um governo responsável perante o Parlamento.[10][11]

A antecipação da maioridade de Pedro II, em 1840, inaugurou um período de estabilização política e de reorganização das elites imperiais. A necessidade de garantir maior previsibilidade à formação dos governos levou à formalização do cargo de presidente do Conselho de Ministros em 1847.[12][13]

Institucionalização do gabinete (1847)

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O Decreto n.º 523, de 20 de julho de 1847, criou o cargo de Presidente do Conselho de Ministros, atribuindo-lhe a função de organizar o ministério e coordenar a ação governamental. A medida não alterou formalmente as prerrogativas do imperador previstas na Constituição de 1824, mas instituiu um novo padrão de funcionamento político, no qual o chefe do gabinete passou a ser o responsável pela articulação entre o Executivo e o Parlamento.[1][2]

A partir desse momento consolidou-se a prática de formação de governos com base em maiorias parlamentares, embora a escolha do presidente do Conselho permanecesse nas mãos do imperador. Esse arranjo marcou a implantação do parlamentarismo no Império em moldes próprios.[4]

Consolidação e política da Conciliação (1853–1868)

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A formação do Gabinete Paraná em 1853 inaugurou a chamada política da Conciliação, que buscava integrar lideranças liberais e conservadoras em torno da estabilidade institucional e da centralização administrativa. Esse período foi caracterizado pela longa duração dos gabinetes, pela redução das revoltas provinciais e pela expansão das instituições estatais.[14][15]

A alternância entre os partidos ocorreu de forma controlada pelo imperador, que intervinha na formação dos ministérios e na dissolução da Câmara quando necessário. Esse mecanismo permitiu a continuidade do regime representativo e a consolidação de uma cultura política baseada na negociação entre as elites.[16]

Crises políticas e reformas (1868–1884)

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A chamada crise de 1868 marcou o fim da Conciliação e evidenciou os limites do sistema parlamentar imperial. A demissão do gabinete liberal de Zacarias de Góis e Vasconcelos por Pedro II e a nomeação de um ministério conservador sem maioria parlamentar provocaram intenso debate sobre o alcance do Poder Moderador.[17][18]

Nas décadas seguintes, os gabinetes estiveram associados à aprovação de reformas fundamentais, como a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885), que evidenciaram a centralidade do Conselho de Ministros na condução das políticas de Estado.[19][20]

Crise final do regime (1884–1889)

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Na década de 1880, o sistema passou a enfrentar crescente desgaste político em razão do avanço do movimento abolicionista, do fortalecimento do republicanismo e da insatisfação de setores militares com o regime monárquico. A sucessão rápida de gabinetes refletiu a perda de capacidade de articulação política do modelo parlamentar imperial.[21][22]

O Gabinete Ouro Preto, formado em 1889, propôs um programa de reformas políticas que incluía ampliação do eleitorado e maior autonomia provincial, mas não conseguiu reverter a crise do regime. A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, extinguiu o Conselho de Ministros e encerrou a experiência parlamentar do Império.[23][24]

Funcionamento do sistema

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O sistema político do Império do Brasil estruturava-se formalmente como uma monarquia constitucional representativa, com Parlamento bicameral e um gabinete responsável pela condução do governo. Na prática, entretanto, o funcionamento do regime era condicionado pela supremacia do Poder Moderador, prerrogativa exclusiva do imperador que lhe permitia nomear e demitir o presidente do Conselho de Ministros, dissolver a Câmara dos Deputados e convocar novas eleições.[25]

A formação dos gabinetes dependia simultaneamente da confiança do imperador e da obtenção de maioria parlamentar. Em geral, o monarca nomeava o chefe do gabinete e, em seguida, realizavam-se eleições destinadas a produzir uma maioria favorável ao governo. Esse mecanismo invertia a lógica do parlamentarismo clássico, no qual o ministério é expressão direta da correlação de forças na Câmara e cai automaticamente quando perde sua maioria.[26]

Esse funcionamento estava associado ao controle do processo eleitoral pelo governo por meio das presidências de província, das redes de patronagem e da influência sobre as juntas eleitorais, o que permitia a construção de maiorias parlamentares relativamente estáveis e a alternância entre os Partido Liberal e o Partido Conservador sem ruptura institucional.[27]

O imperador exercia, assim, o papel de árbitro do sistema político, intervindo nos momentos de crise ministerial e escolhendo o partido responsável pela formação do gabinete. Essa função era justificada pela doutrina constitucional como elemento de equilíbrio entre os poderes e de garantia da estabilidade do regime representativo.[28]

A responsabilidade ministerial perante o Parlamento existia formalmente, mas era limitada pela capacidade do imperador de sustentar ou substituir gabinetes independentemente de derrotas parlamentares. Ainda assim, a necessidade de apoio na Câmara impunha negociações constantes com as bancadas e conferia relevância efetiva ao espaço parlamentar.[29]

Em razão dessa combinação entre representação parlamentar e intervenção decisiva do chefe de Estado, a historiografia passou a caracterizar o sistema como um parlamentarismo às avessas, no qual o Executivo não emanava diretamente da maioria legislativa, mas da iniciativa do imperador, que posteriormente buscava legitimação eleitoral para o gabinete nomeado.[30]

Em comparação com o modelo britânico, frequentemente tomado como referência do parlamentarismo no século XIX, o sistema imperial brasileiro apresentava uma inversão do processo de formação do governo: enquanto na Grã-Bretanha o gabinete resultava da maioria parlamentar e o monarca exercia função essencialmente formal, no Brasil o imperador desempenhava papel ativo na escolha do ministério e na gestão das crises políticas.[31]

A interpretação desse arranjo divide a historiografia. Uma vertente enfatiza o caráter limitado do regime representativo e a centralidade do poder pessoal do imperador, vendo no “parlamentarismo às avessas” um mecanismo de controle do sistema político. Outra destaca a sua capacidade de produzir estabilidade institucional, garantir a alternância entre os partidos e evitar rupturas, interpretando-o como uma adaptação funcional do modelo parlamentar às condições políticas e sociais do Brasil do século XIX.[32]

Apesar das suas especificidades, o regime permitiu a consolidação de práticas parlamentares, como a existência de partidos organizados, debates legislativos regulares, formação de gabinetes com base em maiorias políticas e mecanismos de negociação entre Executivo e Legislativo, constituindo uma experiência singular de monarquia representativa no mundo atlântico.[33]

Poder Moderador

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O Poder Moderador constituía o eixo do sistema político do Império do Brasil e era definido pela Constituição brasileira de 1824 como a “chave de toda a organização política”. Exercido privativamente pelo imperador, conferia-lhe a função de árbitro entre os demais poderes, permitindo-lhe nomear senadores, escolher e demitir ministros, dissolver a Câmara dos Deputados e convocar novas eleições.[34]

Na prática, o Poder Moderador possibilitava ao monarca intervir diretamente na formação dos governos e na resolução das crises políticas, garantindo a continuidade do regime e evitando impasses entre Executivo e Legislativo. Essa prerrogativa era justificada pela doutrina constitucional como um mecanismo de equilíbrio institucional e de preservação da ordem representativa.[25]

A atuação do imperador não se limitava a funções formais. Ao escolher o presidente do Conselho de Ministros e decidir sobre a dissolução da Câmara, o soberano influenciava a alternância entre os partidos e a orientação política do governo, desempenhando papel central no funcionamento do parlamentarismo imperial.[26]

A historiografia tem interpretado o Poder Moderador de maneiras distintas: ora como instrumento de concentração de poder nas mãos do imperador, ora como mecanismo que assegurou a estabilidade do sistema representativo e a unidade política do Império ao longo do século XIX.[35]

Gabinetes

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Os gabinetes ministeriais eram responsáveis pela condução do governo e pela articulação entre o Executivo e o Parlamento. A partir de 1847, com a criação do cargo de Presidente do Conselho de Ministros, consolidou-se a prática de formação de ministérios compostos por membros do partido que obtinha maioria na Câmara dos Deputados.[36]

A duração dos gabinetes variava conforme sua capacidade de manter o apoio parlamentar e a confiança do imperador. Em situações de crise política ou derrota legislativa, o monarca podia demitir o ministério ou dissolver a Câmara e convocar novas eleições para formar uma maioria favorável ao governo.[37]

A alternância entre liberais e conservadores ocorreu sem rupturas institucionais, por meio da intervenção do imperador na escolha do partido responsável pela organização do gabinete. Esse mecanismo contribuiu para a estabilidade do regime e para a consolidação de uma cultura política baseada na conciliação entre as elites dirigentes.[16]

Lista de presidentes do Conselho de Ministros

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NºNomeGabineteInícioFimPartidoRef.
1Manuel Alves BrancoGabinete Alves Branco22 de maio de 18478 de março de 1848Liberal[38]
2Visconde de MacaéGabinete Macaé8 de março de 184831 de maio de 1848Liberal[39]
3Francisco de Paula Sousa e MeloGabinete Paula Sousa31 de maio de 184829 de setembro de 1848Liberal[39]
4Marquês de Olinda1º Gabinete Olinda29 de setembro de 18486 de outubro de 1849Conservador[40]
5Marquês de Monte AlegreGabinete Monte Alegre6 de outubro de 184911 de maio de 1852Conservador[41]
6Visconde de Itaboraí1º Gabinete Itaboraí11 de maio de 18526 de setembro de 1853Conservador[42]
7Marquês do ParanáGabinete Paraná6 de setembro de 18533 de setembro de 1856Conservador[43]
8Duque de Caxias1º Gabinete Caxias3 de setembro de 18564 de maio de 1857Conservador[44]
9Marquês de Olinda2º Gabinete Olinda4 de maio de 185712 de dezembro de 1858Conservador[45]
10Visconde de AbaetéGabinete Abaeté12 de dezembro de 185810 de agosto de 1859Conservador[46]
11Barão de UruguaianaGabinete Ferraz10 de agosto de 18592 de março de 1861Conservador[47]
12Duque de Caxias2º Gabinete Caxias2 de março de 186124 de maio de 1862Conservador[48]
13Zacarias de Góis e Vasconcelos1º Gabinete Zacarias24 de maio de 186230 de maio de 1862Liga Progressista[49]
14Marquês de Olinda3º Gabinete Olinda30 de maio de 186215 de janeiro de 1864Liga Progressista[50]
15Zacarias de Góis e Vasconcelos2º Gabinete Zacarias15 de janeiro de 186431 de agosto de 1864Liga Progressista[50]
16Francisco José FurtadoGabinete Furtado31 de agosto de 186412 de maio de 1865Liberal[51]
17Marquês de Olinda4º Gabinete Olinda12 de maio de 18653 de agosto de 1866Liberal[52]
18Zacarias de Góis e Vasconcelos3º Gabinete Zacarias3 de agosto de 186616 de julho de 1868Liberal[53]
19Visconde de Itaboraí2º Gabinete Itaboraí16 de julho de 186829 de setembro de 1870Conservador[54]
20Marquês de São VicenteGabinete Pimenta Bueno29 de setembro de 18707 de março de 1871Conservador[55]
21Visconde do Rio BrancoGabinete Rio Branco7 de março de 187125 de junho de 1875Conservador[56]
22Duque de Caxias3º Gabinete Caxias25 de junho de 18755 de janeiro de 1878Conservador[57]
23Visconde de SinimbuGabinete Sinimbu5 de janeiro de 187828 de março de 1880Liberal[58]
24José Antônio Saraiva1º Gabinete Saraiva28 de março de 188021 de janeiro de 1882Liberal[59]
25Martinho CamposGabinete Martinho Campos21 de janeiro de 18823 de julho de 1882Liberal[60]
26Visconde de ParanaguáGabinete Paranaguá3 de julho de 188224 de maio de 1883Liberal[60]
27Lafayette Rodrigues PereiraGabinete Lafayette24 de maio de 18836 de junho de 1884Liberal[61]
28Sousa DantasGabinete Dantas6 de junho de 18846 de maio de 1885Liberal[62]
29José Antônio Saraiva2º Gabinete Saraiva6 de maio de 188520 de agosto de 1885Liberal[62]
30Barão de CotegipeGabinete Cotegipe20 de agosto de 188510 de março de 1888Conservador[63]
31João Alfredo Correia de OliveiraGabinete João Alfredo10 de março de 18887 de junho de 1889Conservador[64]
32Visconde de Ouro PretoGabinete Ouro Preto7 de junho de 188915 de novembro de 1889Liberal[65]

Partidos políticos

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O sistema parlamentar imperial estruturou-se em torno de dois grandes partidos — o Partido Liberal e o Partido Conservador — que, embora apresentassem diferenças em relação à centralização administrativa, ao grau de autonomia provincial e à interpretação da Constituição, compartilhavam a defesa da monarquia, da ordem escravista e do regime representativo censitário.[66]

Os partidos não possuíam organização nacional rígida, funcionando como redes de lideranças provinciais articuladas em torno de chefes políticos e de interesses locais. A disputa eleitoral ocorria principalmente no âmbito das províncias, onde as alianças e as relações de patronagem desempenhavam papel decisivo.[67]

A alternância no poder entre liberais e conservadores era mediada pelo imperador, que escolhia qual partido deveria formar o gabinete em momentos de crise política. Esse mecanismo permitiu a coexistência de competição partidária e estabilidade institucional ao longo do Segundo Reinado.[68]

Prática eleitoral

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O sistema eleitoral do Império era censitário e indireto, baseado em critérios de renda que restringiam a participação política a uma parcela reduzida da população. As eleições realizavam-se em dois graus, com a escolha inicial de eleitores de paróquia responsáveis pela indicação dos deputados.[69]

O governo exercia ampla influência sobre o processo eleitoral por meio das presidências de província, do controle das mesas eleitorais e das redes locais de patronagem. Esse mecanismo permitia a formação de maiorias parlamentares favoráveis ao gabinete recém-nomeado, reforçando a lógica do parlamentarismo imperial.[70]

Apesar das limitações do sufrágio e das práticas de fraude e coerção, as eleições desempenhavam papel relevante na legitimação do regime e na integração das elites políticas provinciais ao sistema representativo.[71]

Críticas e limites do sistema

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Apesar da estabilidade institucional alcançada durante o Segundo Reinado, o sistema político imperial apresentava limites significativos em relação à participação política e à representação social. O sufrágio censitário excluía a maior parte da população — incluindo trabalhadores livres pobres, libertos, escravizados e mulheres — restringindo o processo eleitoral a uma reduzida elite de proprietários e homens livres com determinada renda anual.[69]

A dinâmica eleitoral era marcada pela forte influência do governo e das lideranças locais, que controlavam o alistamento de votantes, a composição das mesas eleitorais e o funcionamento das eleições nas paróquias. Essas práticas, frequentemente associadas ao clientelismo e à coerção, limitavam a autonomia do voto e reforçavam a integração das elites provinciais ao sistema político centralizado.[70]

Outro limite estrutural do regime era a manutenção da escravidão, que coexistiu com as instituições representativas durante quase todo o período imperial. A ordem política estava vinculada à preservação da sociedade escravista, e as reformas que conduziram à abolição foram conduzidas de forma gradual e controlada, evitando mobilizações sociais mais amplas.[71]

A centralidade do Poder Moderador também tem sido objeto de debate historiográfico. Embora tenha contribuído para a estabilidade do sistema, ao permitir a resolução de impasses entre Executivo e Legislativo, sua existência concentrava no imperador um conjunto de prerrogativas que relativizava o princípio da soberania parlamentar e limitava a autonomia dos ministérios.[26]

Parte da historiografia interpreta o sistema como excludente do ponto de vista social, mas eficaz na construção de um Estado nacional e na integração das elites regionais. Nesse sentido, a estabilidade política do Império teria sido alcançada ao custo de uma cidadania restrita e de uma participação política limitada.[72]

As tensões entre estabilidade institucional e restrição da participação tornaram-se mais evidentes nas décadas finais do regime, quando o crescimento do movimento abolicionista, a mobilização republicana e o descontentamento de setores militares passaram a questionar os fundamentos do sistema político imperial.[21]

Legado do sistema parlamentar imperial

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O sistema parlamentar do Império do Brasil exerceu influência duradoura na formação da cultura política brasileira. A prática da alternância entre partidos por meio da intervenção do chefe de Estado consolidou mecanismos de conciliação entre as elites regionais e contribuiu para a construção de um Estado nacional relativamente estável em um contexto marcado por revoltas provinciais na primeira metade do século XIX.[16]

A integração das lideranças provinciais ao Parlamento e aos gabinetes ministeriais criou uma classe política com experiência administrativa e legislativa, responsável pela formulação de políticas públicas, pela organização da burocracia imperial e pela mediação entre o poder central e as províncias. Esse processo foi fundamental para a formação de uma tradição de atuação política baseada na negociação e na busca de maiorias parlamentares.[66]

Após a Proclamação da República, em 1889, vários elementos da cultura política imperial foram preservados, como o predomínio das elites regionais, a centralidade das relações pessoais na organização dos partidos e a importância do Executivo na condução do processo político. A experiência parlamentar do Segundo Reinado passou a ser reinterpretada pela historiografia e por setores da classe política como um período de estabilidade institucional e de funcionamento regular das instituições representativas.[72]

O conceito de parlamentarismo às avessas tornou-se uma das principais chaves interpretativas do sistema, influenciando o debate sobre as formas de governo no Brasil ao longo do século XX. Durante as discussões sobre a implantação do parlamentarismo em 1961 e no plebiscito de 1993, o modelo imperial foi frequentemente evocado como referência histórica de funcionamento de um regime parlamentar no país.[21]

Na historiografia contemporânea, o sistema político do Império é analisado como uma experiência singular de adaptação do liberalismo representativo a uma sociedade escravista e profundamente hierarquizada. Seu legado reside tanto na construção das instituições estatais quanto na consolidação de uma cultura política marcada pela negociação entre as elites e pela busca de estabilidade institucional.[73]

Ver também

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Referências

  1. 1 2 Carvalho 2003, p. 41-48.
  2. 1 2 Mattos 1987, p. 213-220.
  3. ↑ Carvalho 1980, p. 96-118.
  4. 1 2 Lynch 2014, p. 145-162.
  5. ↑ Carvalho 1980, p. 119-190.
  6. ↑ Carvalho 1980, p. 251-280.
  7. ↑ Carvalho 1980, p. 71-82.
  8. ↑ Barman 1999, p. 112-130.
  9. ↑ Carvalho 2003, p. 23-35.
  10. ↑ Mattos 1987, p. 147-165.
  11. ↑ Needell 2006, p. 45-63.
  12. ↑ Carvalho 2003, p. 36-41.
  13. ↑ Lynch 2014, p. 133-145.
  14. ↑ Mattos 1987, p. 221-260.
  15. ↑ Needell 2006, p. 87-110.
  16. 1 2 3 Carvalho 1980, p. 161-175.
  17. ↑ Carvalho 1980, p. 176-185.
  18. ↑ Needell 2006, p. 120-140.
  19. ↑ Barman 1999, p. 325-340.
  20. ↑ Carvalho 2003, p. 69-78.
  21. 1 2 3 Carvalho 1980, p. 261-270.
  22. ↑ Needell 2006, p. 170-185.
  23. ↑ Carvalho 2003, p. 79-81.
  24. ↑ Barman 1999, p. 383-395.
  25. 1 2 Carvalho 1980, p. 96-110.
  26. 1 2 3 Carvalho 1980, p. 111-118.
  27. ↑ Carvalho 1980, p. 119-135.
  28. ↑ Carvalho 1980, p. 136-150.
  29. ↑ Carvalho 1980, p. 151-165.
  30. ↑ Carvalho 1980, p. 166-172.
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  32. ↑ Carvalho 1980, p. 181-185.
  33. ↑ Carvalho 1980, p. 186-195.
  34. ↑ Carvalho 1980, p. 71-95.
  35. ↑ Carvalho 1980, p. 119-130.
  36. ↑ Carvalho 1980, p. 131-145.
  37. ↑ Carvalho 1980, p. 146-160.
  38. ↑ Carvalho 2003, p. 52.
  39. 1 2 Carvalho 2003, p. 53.
  40. ↑ Mattos 1987, p. 245.
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  47. ↑ Needell 2006, p. 91.
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  49. ↑ Carvalho 2003, p. 60.
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  52. ↑ Carvalho 2003, p. 63.
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  57. ↑ Needell 2006, p. 140.
  58. ↑ Carvalho 2003, p. 74.
  59. ↑ Carvalho 2003, p. 75.
  60. 1 2 Carvalho 2003, p. 76.
  61. ↑ Carvalho 2003, p. 77.
  62. 1 2 Carvalho 2003, p. 78.
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  64. ↑ Carvalho 2003, p. 80.
  65. ↑ Carvalho 2003, p. 81.
  66. 1 2 Carvalho 1980, p. 176-190.
  67. ↑ Carvalho 1980, p. 191-205.
  68. ↑ Carvalho 1980, p. 206-215.
  69. 1 2 Carvalho 1980, p. 216-225.
  70. 1 2 Carvalho 1980, p. 226-240.
  71. 1 2 Carvalho 1980, p. 241-250.
  72. 1 2 Carvalho 1980, p. 251-260.
  73. ↑ Carvalho 1980, p. 271-280.

Bibliografia

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  • Barman, Roderick (1999). Citizen Emperor. Stanford: Stanford University Press 
  • Carvalho, José Murilo de (1980). A construção da ordem. Rio de Janeiro: Campus 
  • Carvalho, José Murilo de (2003). Teatro de sombras. Rio de Janeiro: UFRJ 
  • Lynch, Christian (2014). O Poder Moderador. Rio de Janeiro: FGV 
  • Mattos, Ilmar Rohloff de (1987). O tempo saquarema. São Paulo: Hucitec 
  • Needell, Jeffrey (2006). The Party of Order. Stanford: Stanford University Press 

Ligações externas

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