Henrique VI de Inglaterra
| Henrique VI | |||||
|---|---|---|---|---|---|
| Rei da Inglaterra e lorde da Irlanda | |||||
Henrique VI representado em uma miniatura do Talbot Shrewsbury Book, produzido por volta de 1444–1445. | |||||
| Rei da Inglaterra e Lorde da Irlanda | |||||
| Primeiro reinado | 1 de setembro de 1422 a 4 de março de 1461 | ||||
| Coroação | 6 de novembro de 1429 | ||||
| Antecessor(a) | Henrique V | ||||
| Sucessor(a) | Eduardo IV | ||||
| Regentes e protetores | Ver lista
| ||||
| Rei da Inglaterra e Lorde da Irlanda | |||||
| Segundo reinado (restauração) | 3 de outubro de 1470 a 11 de abril de 1471 | ||||
| Predecessor(a) | Eduardo IV | ||||
| Sucessor(a) | Eduardo IV | ||||
| Pretensão à coroa da França (disputada) | |||||
| Reivindicação inglesa | 21 de outubro de 1422 a 19 de outubro de 1453 | ||||
| Coroação | 16 de dezembro de 1431 | ||||
| Dados pessoais | |||||
| Nascimento | 6 de dezembro de 1421 Castelo de Windsor, Windsor, Berkshire, Inglaterra | ||||
| Morte | 21 ou 22 de maio de 1471 Torre de Londres, Londres, Inglaterra | ||||
| Sepultamento | Inicialmente na Abadia de Chertsey; trasladado em 1484 para a Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor | ||||
| Esposa | Margarida de Anjou (casamento em 1445) | ||||
| |||||
| Casa | Plantageneta | ||||
| Pai | Henrique V de Inglaterra | ||||
| Mãe | Catarina de Valois | ||||
| Religião | Catolicismo | ||||
| Assinatura | |||||
Henrique VI (6 de dezembro de 1421 – 21 ou 22 de maio de 1471) foi Rei da Inglaterra e Lorde da Irlanda de 1422 a 1461 e novamente, por alguns meses, entre 1470 e 1471. Filho único de Henrique V de Inglaterra e Catarina de Valois, sucedeu ao pai ainda bebê. Em consequência do Tratado de Troyes, também foi proclamado rei da França após a morte de seu avô materno, Carlos VI de França, e coroado em Notre-Dame de Paris em 1431. A pretensão inglesa, entretanto, foi contestada por Carlos VII de França e perdeu sustentação militar com o avanço dos Valois durante a fase final da Guerra dos Cem Anos.[1][2]
Seu reinado foi marcado pela perda de quase todas as possessões inglesas na França, por disputas entre grupos da nobreza e pela crise da autoridade régia que contribuiu para a Guerra das Rosas, conflito entre os partidários das casas de Lencastre e de Iorque. Uma doença grave em 1453 deixou Henrique incapaz de exercer o governo por um período prolongado, levando à nomeação de Ricardo, 3.º Duque de Iorque, como protetor do reino. A rivalidade política converteu-se em guerra aberta em 1455. Deposto em 1461, Henrique permaneceu sob custódia dos yorkistas até ser restaurado ao trono em 1470. A nova restauração durou pouco: após a derrota lancastriana em 1471, Henrique voltou à prisão e morreu na Torre de Londres em circunstâncias controversas.[1][2][3]
Henrique também ficou associado à fundação de instituições educacionais como o Eton College e o King's College, em Cambridge, além de ter sido cofundador nominal do All Souls College, em Oxford. Depois de sua morte, desenvolveu-se um culto religioso em torno de sua memória, mas ele nunca foi canonizado formalmente pela Igreja Católica. Sua representação posterior foi influenciada tanto por narrativas dinásticas quanto pelas peças históricas de William Shakespeare.[4][5][6]
Primeiros anos e minoridade
[editar | editar código]Henrique nasceu no Castelo de Windsor em 6 de dezembro de 1421. Era o único filho de Henrique V e Catarina de Valois, filha do rei francês Carlos VI. Com a morte de seu pai em 31 de agosto de 1422, Henrique sucedeu-o no trono inglês com menos de um ano de idade. A morte de Carlos VI, em 21 de outubro do mesmo ano, permitiu que os partidários ingleses do Tratado de Troyes também o proclamassem rei da França. A pretensão dependia, porém, da continuidade da conquista inglesa e da aceitação das elites e comunidades francesas, condições que se enfraqueceriam progressivamente.[1][2]

Por ser menor de idade, Henrique não governava pessoalmente. Um conselho régio administrava o reino em seu nome, com responsabilidades repartidas entre parentes e grandes senhores. João de Lencastre, Duque de Bedford, irmão mais velho de Henrique V, dirigiu a política inglesa na França e teve papel central na condução da guerra. Seu irmão mais novo, Humberto de Lencastre, Duque de Gloucester, foi nomeado protetor e defensor do reino inglês durante as ausências de Bedford. O cardeal Henrique Beaufort, bispo de Winchester e parente da família real, também exerceu influência no conselho. A morte de Bedford em 1435 agravou as disputas sobre a regência e sobre a condução da política francesa.[1]
A posição de Catarina de Valois na corte inglesa foi delicada. Por ser filha de Carlos VI e mãe do rei reivindicante da França, sua influência era vista com desconfiança por parte da nobreza inglesa, e ela não exerceu um papel pleno na educação política do filho. Depois, Catarina casou-se com o galês Owen Tudor. Dessa união nasceram, entre outros, Edmundo Tudor e Jasper Tudor, meios-irmãos de Henrique. Edmundo foi pai de Henrique VII de Inglaterra, fundador da dinastia Tudor.[1]
A educação de Henrique foi confiada a tutores e membros da corte. Em 1428, Ricardo de Beauchamp, 13.º Conde de Warwick, foi encarregado de sua formação. O ensino de um jovem monarca incluía devoção religiosa, leitura, comportamento cortesão e preparação para o exercício de funções régias; Henrique recebeu manuscritos iluminados e outros livros destinados à instrução. As fontes posteriores associaram sua personalidade à piedade e ao interesse por atividades religiosas e educacionais, embora tais retratos também tenham sido moldados pelas controvérsias sobre seu governo.[2][1]
Em 6 de novembro de 1429, Henrique foi coroado rei da Inglaterra na Abadia de Westminster, quando tinha sete anos. Em 16 de dezembro de 1431, foi coroado em Notre-Dame de Paris como parte da política inglesa de consolidar a monarquia dual prevista no Tratado de Troyes. Foi o único monarca inglês a passar pessoalmente por coroações régias na Inglaterra e na França. A cerimônia parisiense, contudo, não encerrou a disputa: Carlos VII já havia sido coroado em Reims em 1429, e sua autoridade foi fortalecida pelo apoio de parcelas crescentes da população e da nobreza francesas.[1][2]

Henrique começou a assumir responsabilidades próprias no governo durante a década de 1430 e foi considerado maior de idade para fins de governo em 1437, aos dezesseis anos. A passagem da regência para o exercício pessoal do poder não eliminou as estruturas políticas que haviam se formado durante sua infância. Ao contrário, os vínculos de patronato, as rivalidades entre magnatas e as divergências sobre a guerra com a França continuaram a condicionar as decisões da Coroa.[1][3]
Governo e política francesa
[editar | editar código]
Henrique era conhecido por sua devoção religiosa e por favorecer a conciliação em vez do confronto militar. Esse perfil contrastava com a imagem guerreira de seu pai, Henrique V, cujas vitórias haviam reforçado temporariamente o domínio inglês na França. A preferência por negociações não significava, por si só, que Henrique controlasse de forma estável a política externa; as decisões eram disputadas por diferentes grupos da corte, entre os quais se destacavam os partidários do cardeal Beaufort, de William de la Pole e do duque de Gloucester, além de Ricardo de Iorque.[3][1]
A situação inglesa na França deteriorou-se ao longo das décadas de 1430 e 1440. As alianças entre os poderes franceses e borgonheses mudaram após a morte de Bedford, em 1435, e a monarquia de Carlos VII avançou sobre territórios antes controlados pelos ingleses. As campanhas relacionadas a Joana d'Arc haviam contribuído para reverter a iniciativa militar inglesa a partir de 1429. A perda da Normandia, em 1450, e as derrotas finais na Aquitânia, em 1453, reduziram o domínio inglês no continente a Calais, embora a situação política e militar variasse conforme o território e o momento.[1][2]
O governo de Henrique enfrentou ainda problemas financeiros, queixas sobre a distribuição de cargos e terras da Coroa, insegurança local e acusações de favoritismo. A autoridade régia dependia da cooperação de nobres, oficiais e representantes do Parlamento, e as disputas sobre o acesso ao rei tornaram-se cada vez mais difíceis de administrar. John Watts interpreta a política do período no contexto das relações entre o rei, a nobreza e as instituições do reino, chamando a atenção para o papel das redes políticas e das negociações de poder, e não apenas para as características pessoais de Henrique.[3]
Casamento e diplomacia
[editar | editar código]Antes de seu casamento, foram consideradas várias alianças dinásticas. Em 1434, o conselho inglês discutiu uma união com uma filha de Jaime I da Escócia; em 1435, durante o Congresso de Arras, foi sugerido um casamento com uma filha de Carlos VII, mas os representantes franceses não aceitaram a proposta sem que Henrique renunciasse à pretensão ao trono francês. Uma possível aliança com a família dos condes de Armagnac foi discutida no início da década de 1440. O plano buscava explorar a oposição de alguns nobres franceses à autoridade de Carlos VII e poderia auxiliar na defesa da Gasconha inglesa, mas as campanhas militares e a prisão do conde de Armagnac contribuíram para o abandono da negociação.[1]
O acordo matrimonial que prevaleceu foi o casamento com Margarida de Anjou, filha de Renato I de Nápoles e Isabel da Lorena, celebrado em 23 de abril de 1445, em Titchfield Abbey. Margarida era sobrinha de Carlos VII e a união foi negociada como parte dos esforços para obter uma paz com a França. As negociações incluíram a questão de Maine, território estrategicamente importante para a defesa da Normandia. A cessão de Maine aos franceses tornou-se altamente impopular na Inglaterra e foi relacionada à crise política que atingiu o governo de Henrique na década seguinte.[1][7]

A responsabilidade exata pela promessa de ceder Maine é discutida pela historiografia. Alguns relatos atribuem a iniciativa a William de la Pole, conde e depois duque de Suffolk, durante as negociações matrimoniais; outros questionam se ele fez tal promessa ou se a exigência francesa foi apresentada posteriormente e usada contra o ministro no Parlamento. O estudo de Bonita Marie Cron reexamina essa disputa documental, razão pela qual o episódio não deve ser resumido como uma decisão pessoal inequivocamente tomada por Suffolk ou por Margarida.[7]
O casamento fortaleceu o lugar de Margarida na política inglesa. Ela passou a participar das redes de patronato e das disputas sobre a proteção dos interesses do marido e de seu único filho, Eduardo de Westminster. Sua atuação não deve ser interpretada apenas como influência privada sobre um rei supostamente incapaz: a rainha desempenhou funções políticas em um ambiente no qual a continuidade dinástica, o acesso à corte e a construção de alianças eram componentes importantes do governo. A extensão exata de sua responsabilidade por decisões específicas, no entanto, deve ser analisada caso a caso e com base nas fontes disponíveis.[3][1]
Crise da corte: Gloucester, Suffolk e Somerset
[editar | editar código]Em 1447, Humberto, duque de Gloucester, foi convocado perante o Parlamento sob acusação de traição e preso em Bury St Edmunds. Morreu antes de ser julgado. Rumores contemporâneos sugeriram envenenamento, mas não há comprovação definitiva da causa da morte. O episódio eliminou um dos principais adversários políticos da facção de Suffolk e aprofundou a desconfiança em relação à corte régia.[1]
William de la Pole, duque de Suffolk, tornou-se um dos ministros mais influentes do rei e também um dos mais criticados. A perda de territórios na França, as condições do casamento e a percepção de favorecimento a membros da corte alimentaram a oposição. Em 1450, depois de ser acusado pelo Parlamento, Suffolk foi enviado ao exílio. Seu navio foi interceptado no canal da Mancha e ele foi assassinado; seu corpo foi encontrado na costa de Dover. A morte do ministro não resolveu os problemas do governo e mostrou a intensidade do conflito entre a Coroa, os magnatas e setores da sociedade política inglesa.[1][3]
Após a morte de Gloucester, Ricardo, duque de Iorque, foi afastado do centro da corte e enviado à Irlanda para exercer funções de governo. Seu parentesco com a dinastia Plantageneta e a influência de seus aliados faziam dele uma alternativa política importante. Edmundo Beaufort, conde de Somerset, por sua vez, passou a ocupar posições de destaque, inclusive o comando militar na França. A rivalidade entre York e Somerset tornou-se um dos eixos das disputas que antecederam a guerra civil, embora as alianças entre nobres não fossem fixas e variassem de acordo com interesses locais e dinásticos.[1][3]
A revolta de Jack Cade, em Kent, em 1450, expressou o descontentamento com o governo, as acusações de corrupção e os fracassos militares. Cade adotou o nome de John Mortimer e apresentou reivindicações contra a administração régia. Seus seguidores avançaram sobre Londres, onde houve violência e desordem; a revolta foi reprimida e Cade acabou morto. O movimento não foi simplesmente uma extensão da disputa entre York e a corte, mas seus desdobramentos revelaram a fragilidade da autoridade régia e a força das críticas ao governo.[1]
As derrotas na França também contribuíram para a crise. Em 1449, as forças francesas retomaram a iniciativa na Normandia; em 1450, a província foi perdida. A campanha inglesa na Aquitânia conseguiu retomar temporariamente Bordéus em 1452, mas a cidade foi novamente perdida em 1453. Ao final da Guerra dos Cem Anos, Calais era a principal possessão inglesa remanescente no continente. A perda territorial afetou a reputação dos ministros, a capacidade financeira da Coroa e a confiança política no regime de Henrique.[1][2]
Doença do rei e protetorado de York
[editar | editar código]Em agosto de 1453, após a notícia da derrota inglesa na Batalha de Castillon, Henrique sofreu uma doença grave que o deixou incapaz de reagir ao ambiente e de desempenhar suas funções por um período prolongado. A doença coincidiu com o nascimento de seu filho Eduardo, em outubro de 1453. Relatos do período descrevem uma ausência prolongada de resposta e a impossibilidade de o rei participar normalmente da vida política. A causa exata do episódio não pode ser determinada com segurança a partir dos testemunhos medievais.[1][2]
Alguns autores modernos propuseram diagnósticos psiquiátricos retrospectivos, incluindo a hipótese de esquizofrenia, mas esse tipo de análise enfrenta limitações importantes: os relatos foram produzidos em contextos políticos e religiosos específicos, e não existe observação clínica contemporânea comparável à prática médica atual. Nigel Bark apresentou uma interpretação psiquiátrica do caso em 2002, mas tal hipótese não deve ser tratada como diagnóstico histórico definitivamente estabelecido.[8][2]

A incapacidade do rei exigiu a reorganização do governo. Em 1454, Ricardo, duque de Iorque, foi nomeado protetor do reino. Durante o protetorado, Somerset foi preso e Margarida foi afastada da participação direta no governo. A nomeação de York não encerrou a crise: ela alterou o equilíbrio entre as facções, mas a recuperação de Henrique no final de 1454 e início de 1455 reabriu a disputa sobre os cargos e as decisões tomadas durante sua ausência.[1][3]
O conflito entre as facções foi temporariamente contido pelo chamado Dia do Amor, uma cerimônia de reconciliação organizada em Londres em 1458. O acordo simbólico não eliminou as desconfianças nem resolveu as disputas sobre o governo, as perdas na França ou a sucessão. A partir de 1459, os confrontos armados recomeçaram e a rivalidade entre York e os partidários do rei converteu-se em guerra aberta.[1]
Guerra das Rosas
[editar | editar código]
A Guerra das Rosas foi uma série de conflitos dinásticos, políticos e militares que opôs, em diferentes fases, os partidários de Lencastre e de Iorque. As duas casas descendiam de Eduardo III de Inglaterra por linhas diferentes, mas o conflito não se explica apenas pela genealogia: as disputas pelo controle do governo, os interesses dos grandes senhores, as relações regionais e a capacidade de reunir recursos militares foram igualmente importantes. Henrique permaneceu como o soberano lancastriano, enquanto Ricardo de Iorque se tornou o principal rival político até sua morte em 1460.[1][3]
Primeiros confrontos e Ato de Acordo
[editar | editar código]Em 1459, as forças yorkistas reuniram-se contra os partidários de Henrique, mas a retirada de Ludford Bridge levou seus líderes a fugir para a Irlanda ou para Calais. Em 1460, Ricardo Neville, conde de Warwick, e outros comandantes yorkistas regressaram à Inglaterra e obtiveram apoio suficiente para avançar sobre Londres. Em 10 de julho, venceram a Batalha de Northampton e capturaram Henrique. A rainha Margarida e o príncipe Eduardo não foram capturados e continuaram a organizar a resistência lancastriana.[1]
Em outubro de 1460, Ricardo de Iorque reivindicou formalmente o trono. O Parlamento não depôs imediatamente Henrique; em vez disso, o Ato de Acordo reconheceu York como herdeiro do rei, deserdando na prática o príncipe Eduardo. Margarida rejeitou o acordo porque ele ameaçava a sucessão de seu filho. A tentativa de solucionar a crise por meio de uma fórmula jurídica não foi aceita pelos lancastrianos e levou a uma nova mobilização militar.[1]
Em 30 de dezembro de 1460, as tropas lancastrianas venceram a Batalha de Wakefield, na qual Ricardo de Iorque e seu filho Edmundo, conde de Rutland, morreram. A vitória fortaleceu temporariamente a causa de Henrique e Margarida, mas não encerrou o conflito. Em 17 de fevereiro de 1461, os lancastrianos venceram a Segunda Batalha de St Albans, recuperando Henrique, que estava sob custódia dos yorkistas. A força de Margarida, porém, não conseguiu assegurar o controle de Londres, e as duas facções continuaram a disputar o apoio político e militar do reino.[1]
Eduardo IV e o fim do primeiro reinado
[editar | editar código]Enquanto os lancastrianos avançavam no sul, Eduardo, conde de March e filho mais velho de Ricardo de Iorque, obteve uma vitória em Mortimer's Cross. Os yorkistas proclamaram Eduardo rei em 4 de março de 1461, quando ele passou a governar como Eduardo IV. A derrota de Henrique na disputa pelo trono foi consolidada pela Batalha de Towton, em 29 de março, uma das maiores e mais sangrentas batalhas da guerra. A vitória yorkista forçou Henrique, Margarida e o príncipe Eduardo a buscar refúgio fora das principais áreas controladas por Eduardo IV.[1][2]
O reinado de Henrique, que começara em 1422, terminou oficialmente em março de 1461. Embora a resistência lancastriana continuasse, Eduardo IV controlou a maior parte do governo inglês. O conflito prosseguiu por meio de alianças militares regionais, apoio estrangeiro e tentativas de reconquistar fortalezas, em vez de se resolver imediatamente com a deposição de Henrique.[1]
Exílio, resistência e captura
[editar | editar código]Margarida levou o príncipe Eduardo para a Escócia e buscou apoio para a restauração do marido e para a preservação dos direitos sucessórios do filho. A corte escocesa, então associada à rainha-mãe Maria de Gueldres, ofereceu refúgio temporário, mas os interesses diplomáticos da Escócia mudaram ao longo do conflito. Negociações com os yorkistas e a busca por uma trégua com Eduardo IV reduziram a utilidade do apoio escocês à causa lancastriana.[1]
Depois de novas derrotas, Margarida deixou a Escócia e procurou apoio na França e em territórios continentais. Henrique permaneceu na Grã-Bretanha, dependendo de simpatizantes no norte da Inglaterra. A derrota lancastriana na Batalha de Hexham, em maio de 1464, reduziu ainda mais a capacidade militar de seus apoiadores. Henrique continuou escondido por cerca de um ano, mudando de abrigo e contando com a ajuda de famílias locais que ainda reconheciam sua autoridade.[1][2]
Em julho de 1465, Henrique foi reconhecido e capturado na região de Waddington, após ter se refugiado em Waddington Hall, residência de Sir Richard Tempest. Segundo a tradição registrada nas crônicas, ele fugiu para os bosques próximos, mas acabou capturado nas proximidades de Brungerley Hippings, junto ao Rio Ribble. Foi levado a Londres e preso na Torre de Londres, onde permaneceu até a restauração de 1470. Relatos locais posteriores associaram sua fuga a outros esconderijos no norte da Inglaterra; esses episódios devem ser distinguidos da cronologia principal da captura, para a qual as fontes medievais são mais relevantes.[1][2]
Restauração de 1470
[editar | editar código]
A permanência de Eduardo IV no trono foi abalada por sua ruptura com alguns dos seus principais aliados, entre eles Ricardo Neville, 16.º Conde de Warwick, conhecido posteriormente como o “Fazedor de Reis”, e Jorge, Duque de Clarence, irmão do rei. Warwick se aproximou da causa lancastriana e negociou uma aliança com Margarida de Anjou, com apoio diplomático de Luís XI de França. A aliança foi pragmática e resultou de uma combinação de interesses políticos e dinásticos; não representou necessariamente uma reconciliação ideológica entre antigos adversários.[1][3]
Em setembro de 1470, Warwick e seus aliados desembarcaram na Inglaterra e Eduardo IV fugiu para os Países Baixos. A restauração de Henrique é convencionalmente datada de 3 de outubro de 1470; ele foi libertado da Torre de Londres alguns dias depois. O episódio é conhecido como a Restauração de Henrique VI ou readeption. Entretanto, sua capacidade de governar por conta própria era limitada depois de anos de reclusão e de sua doença anterior. O governo efetivo permaneceu nas mãos dos aliados que possibilitaram sua volta, sobretudo Warwick e Clarence.[1][2]
Margarida e o príncipe Eduardo permaneceram no continente durante parte decisiva desses acontecimentos e não chegaram à Inglaterra a tempo de estabilizar a posição lancastriana antes do retorno de Eduardo IV. Enquanto isso, Warwick entrou em conflito com a Borgonha. O duque Carlos, o Audaz, forneceu apoio a Eduardo IV, que regressou à Inglaterra na primavera de 1471. A restauração de Henrique dependia, portanto, de uma coalizão militar vulnerável e de circunstâncias internacionais instáveis.[1]
Eduardo IV recuperou Londres e retomou o controle do reino. Warwick foi morto na Batalha de Barnet, em 14 de abril de 1471. Margarida e Eduardo de Westminster desembarcaram na Inglaterra pouco depois, mas as forças lancastrianas foram derrotadas na Batalha de Tewkesbury, em 4 de maio. O príncipe Eduardo morreu após a batalha; os relatos diferem em detalhes sobre as circunstâncias imediatas de sua morte. A derrota eliminou a principal possibilidade de restaurar a dinastia por meio do filho de Henrique e Margarida.[1][2]
Prisão e morte
[editar | editar código]Após a derrota em Tewkesbury, Henrique voltou a ser preso na Torre de Londres. Sua morte é tradicionalmente datada de 21 de maio de 1471, embora algumas descrições modernas indiquem a noite de 21 para 22 de maio. Os relatos oficiais ligados ao governo de Eduardo IV atribuíram a morte à melancolia provocada pela derrota lancastriana e pela morte do príncipe. Contudo, relatos contemporâneos e posteriores levantaram suspeitas de que Henrique tivesse sido assassinado, possivelmente por ordem de Eduardo IV ou por agentes associados a seu irmão, Ricardo, duque de Gloucester. Não há consenso definitivo sobre quem ordenou sua morte ou sobre a sequência exata dos acontecimentos.[1][2]
A crônica Historie of the arrivall of Edward IV, favorável ao rei yorkista, apresentou uma explicação ligada à melancolia. Outras tradições imputaram a responsabilidade a Ricardo de Gloucester, que mais tarde reinaria como Ricardo III. A existência de narrativas conflitantes deve ser considerada em seu contexto: os relatos foram produzidos em um período de luta dinástica e eram potencialmente influenciados por interesses políticos. A alegação de que Henrique foi morto enquanto rezava na Torre de Wakefield tornou-se uma tradição duradoura, mas o local preciso da morte e o responsável não foram demonstrados de maneira conclusiva.[1][2]
A morte de Henrique ocorreu poucos dias depois da derrota militar que encerrou a restauração lancastriana. Com seu filho morto e os principais comandantes da causa derrotados ou exilados, a possibilidade imediata de uma recuperação lancastriana desapareceu. A Casa de Lencastre, contudo, não foi extinta como linhagem familiar: a pretensão dinástica seria posteriormente retomada por Henrique Tudor, descendente da família Beaufort, que conquistou o trono em 1485 e fundou a dinastia Tudor.[1][3]
Henrique foi inicialmente sepultado na Abadia de Chertsey, em Surrey. Em 1484, durante o reinado de Ricardo III, seus restos mortais foram trasladados para a Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor. A transferência ocorreu depois que seu túmulo passou a atrair devotos e peregrinos. A localização exata de sua morte na Torre de Londres permanece incerta, apesar da associação tradicional com a Torre de Wakefield.[2][1]
Legado
[editar | editar código]Educação e arquitetura
[editar | editar código]O legado mais duradouro de Henrique VI esteve ligado à educação e ao patronato religioso. Em 1440, ele fundou o Eton College, perto de Windsor, com a intenção de fornecer ensino e alojamento a estudantes, inclusive jovens de famílias sem grandes recursos. A carta de fundação, emitida em 11 de outubro de 1440, previa uma comunidade religiosa, uma escola e a manutenção de estudantes. O projeto foi concebido como uma instituição real, financiada por propriedades e direitos concedidos pela Coroa.[4]

Em 1441, Henrique fundou o King's College, em Cambridge, originalmente concebido em ligação estreita com Eton. O projeto real foi ampliado ao longo dos anos e a construção da capela começou em 1446, mas o conjunto arquitetônico planejado não foi concluído durante o reinado de Henrique. A capela tornou-se um dos exemplos mais conhecidos do gótico tardio inglês e um dos monumentos mais associados à memória do rei.[5][2]
Henrique também foi cofundador nominal do All Souls College, em Oxford. A instituição foi planejada e dotada na década de 1430 pelo arcebispo Henry Chichele, que obteve a carta de fundação em 1438 com o apoio formal do rei. O colégio combinava funções religiosas e acadêmicas, incluindo orações pelos mortos nas guerras com a França. A participação de Henrique na fundação é, portanto, real, mas deve ser distinguida do papel central desempenhado por Chichele na criação e organização da instituição.[6]
O patronato de Henrique incluiu projetos arquitetônicos e religiosos, mas não deve ser interpretado como se todas as obras associadas a seu nome tivessem sido concluídas por ele. A capela de King's College, por exemplo, atravessou várias fases de construção e foi concluída muito depois de sua morte. A continuidade dessas instituições contribuiu para que a memória do rei não ficasse restrita à derrota militar e à crise política de seu reinado.[4][5]
Culto póstumo e canonização não realizada
[editar | editar código]Após sua morte, Henrique foi venerado por parte dos fiéis como santo e mártir. Relatos de milagres foram associados à sua memória e circularam entre peregrinos que visitavam seu túmulo. A devoção estava relacionada à imagem de Henrique como um rei piedoso que sofreu perdas e morreu durante uma crise dinástica. O culto também tinha implicações políticas, pois sua memória podia ser usada para fortalecer a legitimidade dos descendentes de Lencastre e, posteriormente, dos Tudor.[9]

Ricardo III ordenou a transferência do corpo para Windsor, onde o túmulo continuou associado à devoção. Henrique VII promoveu a coleta de relatos de milagres e buscou obter sua canonização junto à Santa Sé. O processo não resultou em canonização formal. O culto declinou ao longo do século XVI, especialmente com as transformações religiosas e dinásticas associadas à Reforma inglesa. Os relatos de milagres devem ser entendidos como evidência da devoção e da memória religiosa do período, não como comprovação independente dos fenômenos sobrenaturais descritos. Uma tradição comemorativa que associa Henrique a lírios e rosas também se desenvolveu em torno da Torre de Londres e de instituições educacionais ligadas à sua memória.[9][1][2]
Representações na literatura e na cultura
[editar | editar código]
Henrique VI é o protagonista das três peças históricas de William Shakespeare intituladas Henrique VI, Parte 1, Henrique VI, Parte 2 e Henrique VI, Parte 3; também aparece em Ricardo III. Nas peças, Henrique costuma ser retratado como piedoso, pacífico e pouco apto a controlar as disputas políticas e militares que o cercam. Essa interpretação contribuiu para a imagem popular do rei como um governante fraco, embora as obras dramáticas sejam construções literárias escritas mais de um século depois dos acontecimentos e não possam ser usadas como descrição neutra de sua personalidade ou de seu governo.[1][3]
As peças de Shakespeare cobrem acontecimentos desde o fim do reinado de Henrique V até a morte de Henrique VI e a ascensão de Ricardo III. A narrativa dramatizada realça as disputas entre Lencastre e Iorque e a participação de Margarida de Anjou, mas adapta personagens e episódios para fins dramáticos e políticos próprios do teatro elisabetano. A recepção cultural do rei deve, portanto, ser distinguida da reconstrução histórica baseada em crônicas, documentos régios e estudos modernos.[3]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 «Henry VI». Dictionary of National Biography, 1885–1900 (em inglês). Consultado em 16 de outubro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 «Henry VI: England's Youngest Monarch». Historic Royal Palaces (em inglês). Consultado em 16 de outubro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Watts, John (1996). Henry VI and the Politics of Kingship (em inglês). Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 9780521420396
- 1 2 3 «Henry VI: Establishing the college». Eton College Collections (em inglês). Consultado em 16 de outubro de 2026
- 1 2 3 «History of the Chapel». King's College Cambridge (em inglês). Consultado em 16 de outubro de 2026
- 1 2 «History of the College». All Souls College, University of Oxford (em inglês). Consultado em 16 de outubro de 2026
- 1 2 Cron, Bonita Marie (1994). «The duke of Suffolk, the Angevin marriage, and the ceding of Maine, 1445». Journal of Medieval History (em inglês). 20 (1): 77–99. doi:10.1016/0304-4181(93)00730-C
- ↑ Bark, Nigel (2002). «Did schizophrenia change the course of English history? The mental illness of Henry VI». Medical Hypotheses (em inglês). 59 (4): 416–421. doi:10.1016/S0306-9877(02)00145-7
- 1 2 Craig, Leigh Ann (2003). «Royalty, Virtue, and Adversity: The Cult of King Henry VI». Albion (em inglês). 35 (2): 187–209. doi:10.2307/4054134
Bibliografia
[editar | editar código]- Griffiths, Ralph A. (1981). The Reign of King Henry VI: The Exercise of Royal Authority, 1422–1461 (em inglês). Berkeley: University of California Press
- Watts, John (1996). Henry VI and the Politics of Kingship (em inglês). Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 9780521420396
- Wolffe, Bertram (1981). Henry VI (em inglês). Londres: Eyre Methuen
- Johnson, Lauren (2019). Shadow King: The Life and Death of Henry VI (em inglês). Londres: Head of Zeus
- Duffy, Eamon (1992). The Stripping of the Altars: Traditional Religion in England 1400–1580 (em inglês). New Haven: Yale University Press. ISBN 9780300060768
- Cron, Bonita Marie (1994). «The duke of Suffolk, the Angevin marriage, and the ceding of Maine, 1445». Journal of Medieval History (em inglês). 20 (1): 77–99. doi:10.1016/0304-4181(93)00730-C
- Craig, Leigh Ann (2003). «Royalty, Virtue, and Adversity: The Cult of King Henry VI». Albion (em inglês). 35 (2): 187–209. doi:10.2307/4054134
Ligações externas
[editar | editar código]- Henrique VI: England's Youngest Monarch — Historic Royal Palaces (em inglês)
- Henrique VI e a fundação de Eton — Eton College Collections (em inglês)
- História do All Souls College — Universidade de Oxford (em inglês)
- Henry VI and the Politics of Kingship — Cambridge University Press (em inglês)
- Nascidos em 1421
- Duques da Aquitânia
- Duques da Cornualha
- Monarcas da Inglaterra
- Monarcas católicos romanos
- Lordes da Irlanda
- Crianças soberanas
- Pretendentes ingleses ao trono francês
- Dinastia de Lencastre
- Monarcas britânicos que foram depostos ou abdicaram
- Sepultados na Capela de São Jorge
- Personalidades da Guerra das Rosas
- Personalidades da Guerra dos Cem Anos
- Ingleses de ascendência francesa
- Naturais de Windsor