Omar II
| Omar II | |
|---|---|
| Miralmuminim e califa de Deus | |
| 8.º califa do Califado Omíada | |
| Reinado | 22 de setembro de 717 – 5 de fevereiro de 720 |
| Antecessor(a) | Solimão ibne Abalmaleque |
| Sucessor(a) | Iázide II |
| Governador omíada do Hejaz | |
| Reinado | 706 – 712 |
| Sucessor(a) | Otomão ibne Haiane Almurri (em Medina) Calide ibne Abedalá (em Meca) |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | c. 680 Medina, Hejaz, Califado Omíada |
| Morte | c. 5 de fevereiro de 720 |
| Sepultamento | Deir Simane |
| Cônjuge | |
| Casa | maruânida |
| Dinastia | dinastia omíada |
| Pai | Abedalazize ibne Maruane |
| Mãe | Laila binte Ácime |
| Filho(s) | Lista
|
| Religião | Islão |
Omar ibne Abedalazize (em árabe: عمر بن عبد العزيز; romaniz.: ʿUmar ibn ʿAbd al-ʿAzīz; Medina, c. 680 – Dair Simã, fevereiro de 720), também conhecido como Omar II, foi o oitavo califa do Califado Omíada, governando de 717 até sua morte, em 720. Membro da dinastia omíada, pertencia ao ramo maruânida por parte de pai e era bisneto materno do segundo califa ortodoxo, Omar (r. 634–644). Distinguiu-se dos demais governantes omíadas por sua reputação de piedade, justiça e austeridade, sendo frequentemente apresentado pela tradição muçulmana como um modelo de governante islâmico.
Filho de Abedalazize ibne Maruane, governador do Egito, Omar passou parte da infância naquela província e recebeu sua formação religiosa em Medina. Em 706, foi nomeado governador do Hejaz pelo califa Alualide I, cargo que exerceu até 712. Durante seu governo, promoveu a ampliação da Mesquita do Profeta, favoreceu os estudiosos religiosos e adotou uma administração considerada moderada pelas fontes tradicionais. Após sua destituição, permaneceu próximo à corte omíada e tornou-se um dos principais conselheiros de Solimão ibne Abalmaleque, que o designou como sucessor pouco antes de morrer, em setembro de 717. Sua ascensão contrariou a expectativa de que o califado continuasse exclusivamente entre os descendentes diretos de Abalmaleque ibne Maruane.
Durante seu breve reinado, Omar procurou reformar a administração provincial, combater os abusos dos governadores e promover maior igualdade entre os muçulmanos árabes e os não árabes, conhecidos como maulas. Suas reformas fiscais incluíram a isenção da jizia para os convertidos ao Islão, acompanhada de medidas destinadas a preservar a arrecadação do caraje, imposto territorial. Também procurou impedir a apropriação privada de terras públicas, promoveu a preservação dos hádices e encerrou a prática oficial de amaldiçoar Ali durante os sermões religiosos. Na política militar, ordenou a retirada das tropas omíadas do malsucedido cerco de Constantinopla, embora tenha mantido operações defensivas e incursões nas fronteiras do califado.
Omar morreu em fevereiro de 720, após menos de três anos de governo, e foi sucedido por Iázide II. Sua reputação de governante justo e piedoso foi preservada tanto por autores muçulmanos posteriores quanto por adversários da dinastia omíada. Em determinados círculos religiosos, especialmente em Medina, chegou a ser identificado com o Mádi, figura associada à restauração da justiça. Embora a curta duração de seu reinado dificulte a avaliação dos resultados de suas reformas, sua imagem ocupa uma posição singular na tradição historiográfica islâmica, que frequentemente o distingue dos demais califas omíadas.
Vida
[editar | editar código]Primeiros anos
[editar | editar código]Omar provavelmente nasceu em Medina por volta de 680.[1][2] Seu pai, Abedalazize ibne Maruane, pertencia à família reinante da dinastia omíada, estabelecida na cidade, enquanto sua mãe, Laila binte Ácime, pertencia ao clã dos aditas, da tribo dos coraixitas, e era neta do segundo califa ortodoxo, Omar (r. 634–644).[3] Assim como seu bisavô, Omar possuía a cúnia (tecnônimo) Abu Háfece.[4] Sua descendência do segundo califa seria posteriormente bastante enfatizada pelos historiadores, que procuravam distinguir seu caráter e governo daqueles dos demais califas omíadas.[1]
Na época de seu nascimento, outro ramo dos omíadas, os sufiânidas, governava a partir de sua capital, Damasco. Após as mortes sucessivas do califa Iázide I (r. 680–683) e de seu filho e sucessor, Moáuia II (r. 683–684), em 683 e 684, a autoridade omíada entrou em colapso em grande parte do califado. Os omíadas do Hejaz, incluindo os de Medina, foram expulsos pelos partidários do califa rival Abedalá ibne Azobair (r. 683–692), estabelecido em Meca. Os exilados omíadas refugiaram-se na Síria, onde tribos árabes leais apoiavam a dinastia. O avô de Omar, Maruane I (r. 684–685), foi reconhecido como califa por essas tribos e, com seu apoio, restabeleceu o domínio omíada sobre a Síria.[5]
Em 685, Maruane expulsou do Egito o governador de Ibne Azobair e nomeou o pai de Omar para governar a província.[6] Omar passou parte da infância no Egito, particularmente em Heluã, que se tornou a sede do governo de seu pai entre 686 e sua morte, em 705.[2] Recebeu sua educação em Medina,[2] reconquistada pelos omíadas em 692, durante o reinado de seu tio paterno, o califa Abalmaleque ibne Maruane (r. 685–705).[7] Como passou grande parte da juventude em Medina, Omar desenvolveu vínculos com os homens piedosos da cidade e com os transmissores de hádices. Após a morte de seu pai, Abalmaleque convocou Omar a Damasco.[2]
Governo do Hejaz
[editar | editar código]Pouco depois de sua ascensão, Alualide I (r. 705–715), filho e sucessor de Abalmaleque, nomeou Omar governador de Medina, cargo que exerceu de 706 a 712.[2][8] Segundo Julius Wellhausen, Alualide pretendia utilizar Omar para reconciliar os habitantes de Medina com o domínio omíada e apagar as lembranças negativas dos governadores anteriores, especialmente Hixame ibne Ismail Almaquezumi, cujo governo havia sido severo com a população.[1] Omar assumiu o cargo em fevereiro ou março de 706, e sua jurisdição foi posteriormente ampliada para incluir Meca e Taife. As informações sobre seu governo são escassas, mas a maioria dos relatos tradicionais descreve-o como um governador justo, segundo o historiador Paul M. Cobb. Frequentemente dirigia a peregrinação anual do haje em Meca e favorecia os estudiosos da jurisprudência islâmica de Medina, especialmente Saíde ibne Almuçaíbe. Omar tolerava as críticas abertas que muitos desses estudiosos dirigiam à conduta do governo omíada.[1] Outros relatos, entretanto, apresentam-no como materialista durante o início de sua carreira.[2] Por ordem de Alualide, Omar iniciou em 707 a reconstrução e ampliação da Mesquita do Profeta, em Medina. Sob seu governo geralmente moderado, o Hejaz tornou-se um refúgio para exilados políticos e religiosos iraquianos que fugiam das perseguições de Alhajaje ibne Iúçufe, poderoso vice-rei de Alualide sobre a metade oriental do califado.[2] Segundo Cobb, essa circunstância acabou provocando sua destituição, pois Alhajaje pressionou o califa a afastá-lo em maio ou junho de 712. Por influência de Alhajaje, Alualide convocou Omar de volta e dividiu o Hejaz em províncias separadas, nomeando Otomão ibne Haiane Almurri governador de Medina e Calide ibne Abedalá ibne Calide ibne Acide governador de Meca.[9]
Cortesão de Alualide e Solimão
[editar | editar código]Apesar de sua destituição, Omar permaneceu nas boas graças de Alualide, pois era irmão da primeira esposa do califa, Ume Albanine binte Abedalazize.[10] Permaneceu na corte de Alualide, em Damasco, até a morte do califa, em 715,[2] e, segundo o historiador do século IX Aliacubi, dirigiu suas orações fúnebres.[11] O irmão e sucessor de Alualide, Solimão ibne Abalmaleque (r. 715–717), tinha Omar em elevada consideração.[10] Ao lado de Rajá ibne Haiua, influente figura religiosa da corte omíada, Omar atuou como um dos principais conselheiros de Solimão. Acompanhou-o quando dirigiu a peregrinação do haje a Meca, em 716, e no retorno a Jerusalém. Também esteve ao lado do califa no acampamento de mobilização muçulmano em Dabique, no norte da Síria, de onde Solimão dirigia o enorme esforço militar destinado à conquista de Constantinopla, capital do Império Bizantino, em 717.[2]
Califado
[editar | editar código]Ascensão
[editar | editar código]Segundo as fontes tradicionais muçulmanas, quando Solimão se encontrava em seu leito de morte, em Dabique, Rajá convenceu-o a designar Omar como sucessor.[2][12][13][14] O filho de Solimão, Aiube ibne Solimão, havia sido inicialmente escolhido como herdeiro, mas morreu antes do pai,[15] enquanto seus outros filhos eram demasiado jovens ou estavam ausentes, combatendo na fronteira bizantina.[13] A nomeação de Omar contrariava os desejos de Abalmaleque, que pretendia restringir o califado a seus descendentes diretos.[2] A escolha de Omar, integrante de um ramo secundário da dinastia, em detrimento dos numerosos descendentes de Abalmaleque, surpreendeu esses príncipes. Segundo Wellhausen, ninguém esperava essa decisão, nem mesmo Omar. Rajá conduziu os preparativos sucessórios, convocando os príncipes omíadas à mesquita de Dabique e exigindo que reconhecessem o testamento de Solimão, cujo conteúdo mantivera em segredo. Somente depois de os omíadas aceitarem revelou que Omar era o sucessor escolhido pelo califa. Hixame ibne Abalmaleque manifestou oposição, mas cedeu após ser ameaçado com o uso da força.[14] Um possível conflito dinástico foi evitado mediante a designação de outro filho de Abalmaleque, Iázide II, como sucessor de Omar.[13] Segundo o historiador Reinhard Eisener, o papel de Rajá nesses acontecimentos provavelmente foi exagerado. Para ele, uma explicação mais plausível seria que a sucessão de Omar resultou de padrões tradicionais de senioridade e de direitos sucessórios fundamentados, derivados da designação original de seu pai, Abedalazize, por Maruane I como sucessor de Abalmaleque.[16] Essa sucessão não se concretizara porque Abedalazize morreu antes de Abalmaleque.[17] Omar assumiu o califado sem oposição significativa em 22 de setembro de 717.[2]
Administração provincial
[editar | editar código]Pouco depois de sua ascensão, Omar reorganizou as administrações provinciais.[2] Nomeou homens competentes sobre os quais pudesse exercer controle, demonstrando sua intenção de supervisionar atentamente a administração das províncias.[12] Wellhausen observa que o califa não concedia autonomia irrestrita aos governadores em troca da remessa das receitas provinciais; ao contrário, supervisionava ativamente suas administrações, tendo como principal preocupação não tanto a ampliação do poder, mas o estabelecimento da justiça.[18] Omar dividiu o vasto governo que havia sido estabelecido sobre o Iraque e as regiões orientais do califado sob o vice-rei de Abalmaleque, Alhajaje ibne Iúçufe.[12] O governador nomeado por Solimão para essa extensa jurisdição, Iázide ibne Almoalabe, foi destituído e aprisionado por Omar por não ter remetido ao tesouro califal os despojos de sua campanha anterior no Tabaristão, ao longo da costa meridional do Mar Cáspio.[12][19] Em seu lugar, nomeou Abede Alhamide ibne Abederramão ibne Zaide ibne Alcatabe, integrante da família do califa Omar I, para governar Cufa; Adi ibne Arta Alfazari, para Baçorá; Aljarrá ibne Abedalá Alhaquemi, para o Coração; e Anre ibne Muslim Albaili, irmão do conquistador Cutaiba ibne Muslim, para o Sinde. Nomeou ainda Omar ibne Hubaira Alfazari para governar a Jazira (Alta Mesopotâmia). Embora muitos desses nomeados tivessem sido discípulos de Alhajaje ou estivessem associados à facção dos caicitas, Omar escolheu-os por sua confiabilidade e integridade, e não por oposição ao governo de Solimão.[19] Omar nomeou Açame ibne Maleque Alcaulani para governar o Alandalus, na Península Ibérica, e Ismail ibne Ubaide Alá ibne Abi Almuajir para Ifríquia. Escolheu esses governadores por considerar que eram neutros nas disputas tribais entre caicitas e iemenitas e que tratavam os oprimidos com justiça.[20]
Reformas econômicas
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A reforma mais significativa de Omar foi a promoção da igualdade entre árabes e maulas (muçulmanos não árabes). A medida dizia respeito principalmente aos soldados não árabes do exército muçulmano, que não recebiam as mesmas parcelas de despojos, terras e salários concedidas aos soldados árabes. A política também se estendia à sociedade muçulmana em geral.[21] Sob os governantes omíadas anteriores, os muçulmanos árabes desfrutavam de privilégios financeiros em relação aos muçulmanos não árabes. Os convertidos não árabes ao Islão continuavam obrigados a pagar a jizia, imposto de capitação que pagavam antes da conversão. Omar implantou um novo sistema que isentava todos os muçulmanos da jizia, independentemente de sua origem. Também introduziu salvaguardas destinadas a impedir que as conversões em massa ao Islão provocassem o colapso das finanças do governo omíada.[22] Segundo a nova política tributária, os maulas convertidos não pagariam a jizia nem outros impostos destinados aos dimis, mas, após a conversão, suas terras passariam a pertencer às respectivas aldeias e continuariam sujeitas à alíquota integral do caraje, imposto territorial. Essa medida compensava a perda de receitas decorrente da redução do número de contribuintes da jizia.[23]
Omar promulgou um decreto tributário que estabelecia:
Citação: Todo aquele que aceitar o Islão, seja cristão, judeu ou zoroastrista, dentre os que atualmente estão sujeitos a impostos, e que se integrar à comunidade dos muçulmanos em suas moradas, abandonando o lugar onde anteriormente residia, terá os mesmos direitos e deveres que eles, os quais deverão acolhê-lo e tratá-lo como um dos seus.[24]
Além disso, a administração islâmica primitiva era marcada pela apropriação sistemática da riqueza pública pelas elites. Um exemplo foi o califa Moáuia I, que confiscou propriedades públicas conquistadas e terras da Coroa no Iraque, na Síria e no Iêmem, incluindo antigas propriedades reais sassânidas, para transformá-las em propriedades privadas e concessões fundiárias destinadas à sua família e aos seus colaboradores.[25] Enquanto os primeiros governantes tratavam os bens públicos como patrimônio hereditário da família, Omar II distinguiu-se por procurar conter essa prática generalizada de apropriação dinástica e impedir que as elites privatizassem terras públicas da Coroa. Para isso, promulgou uma determinação destinada a proteger as terras estatais (sawāfī) contra sua alienação como propriedades privadas.[26]
Política interna
[editar | editar código]Omar modificou as disposições jurídicas relativas à compensação por morte ilícita, denominada preço de sangue. Durante o governo do primeiro califa omíada, Moáuia I (r. 661–680), metade da compensação devida às famílias não muçulmanas, classificadas como dimis, era desviada para o tesouro estatal (Baite Almal). Omar encerrou essa prática para limitar os excessos do Estado, mas, em vez de devolver a parcela excedente às famílias das vítimas, manteve o valor da compensação reduzido à metade. Essa decisão refletia um regime condicionado pela insegurança financeira e pela recusa em conceder plena igualdade jurídica aos não muçulmanos. Sua omissão estabeleceu um precedente posteriormente utilizado pelos juristas para limitar permanentemente a compensação devida pela morte de um não muçulmano à metade daquela devida pela morte de um muçulmano.[27] Possivelmente para evitar reações contrárias às medidas de equiparação, Omar ampliou o processo de islamização que vinha se intensificando sob seus predecessores maruânidas. Essa política incluía medidas destinadas a distinguir muçulmanos de não muçulmanos e o início de uma campanha islâmica de iconoclastia.[28] Segundo Khalid Yahya Blankinship, Omar pôs fim à prática de amaldiçoar ritualmente o califa Ali (r. 656–661), primo e genro de Maomé, durante os sermões das orações de sexta-feira.[28] Omar desempenhou um papel importante na promoção da suna de Maomé e de seus sucessores. É-lhe atribuída a ordem para realizar a primeira compilação oficial de hádices, isto é, ditos e ações atribuídos ao profeta islâmico Maomé, por receio de que parte dessas tradições se perdesse. Sua promoção da suna e seu compromisso com a autoridade religiosa tradicional provocaram forte oposição dos cadaritas, com os quais manteve profundas divergências teológicas.[29]
Política militar
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Diante dos enormes custos das campanhas militares em andamento, Omar alterou suas prioridades militares ao assumir o poder. Ordenou que o exército muçulmano comandado por seu primo Maslama ibne Abalmaleque abandonasse o malsucedido cerco de Constantinopla e se retirasse para as regiões de Antioquia e Melitene, mais próximas da fronteira síria.[2] No verão de 718, organizou uma expedição destinada a facilitar essa retirada.[30] Omar manteve as incursões anuais de verão contra a fronteira bizantina,[2] em razão da obrigação religiosa da jiade.[10] Permaneceu no norte da Síria, residindo frequentemente em sua propriedade em Cunacira, onde construiu uma sede fortificada.[2][31]
Em 717, Omar enviou uma força comandada por Ibne Hatime ibne Anumane Albaili ao Azerbaijão para dispersar um grupo de turcos que havia realizado incursões devastadoras na província. Em 718, mobilizou tropas iraquianas e sírias para reprimir a rebelião carijita de Xauda Aliscuri, no Iraque, embora algumas fontes indiquem que o conflito tenha sido resolvido por meios diplomáticos.[2] Essa solução corresponderia às instruções que dera ao governador do Iraque para convidar os dissidentes a seguir o Livro de Deus, isto é, o Alcorão, e a suna de Seu Profeta, em vez de recorrer aos mecanismos habituais de coerção estatal.[32] As fontes frequentemente apresentam Omar como pacifista, e Cobb atribui seu cansaço diante das guerras à preocupação com a diminuição dos recursos do tesouro califal.[2] Wellhausen sustenta que Omar era contrário às guerras de conquista por reconhecer que eram travadas não em nome de Deus, mas pela obtenção de despojos.[10]
Blankinship considera essa explicação insuficiente.[33] Segundo ele, foram as enormes perdas sofridas pelos árabes durante o malsucedido cerco de Constantinopla, incluindo a destruição de sua frota, que levaram Omar a considerar particularmente vulneráveis a ataques bizantinos suas posições no Alandalus, separado do restante do califado pelo mar, e na Cilícia. Por isso, favoreceu a retirada das forças muçulmanas dessas duas regiões. A mesma avaliação estratégica levou-o a considerar a retirada das tropas muçulmanas da Transoxiana, a fim de reforçar as defesas da Síria.[34] O historiador Muhammad Abdulhayy Shaban relaciona as tentativas de Omar de limitar as ofensivas ao descontentamento dos elementos iemenitas do exército, que considera politicamente predominantes durante seu reinado, com o emprego excessivo das tropas em campanhas militares.[33] Embora tenha interrompido a expansão para o Oriente, o estabelecimento do Islão em diversas cidades da Transoxiana impediu Omar de retirar as tropas árabes da região.[35] Durante seu reinado, as forças muçulmanas no Alandalus conquistaram e fortificaram a cidade costeira mediterrânica de Narbona, na atual França.[36]
Morte
[editar | editar código]Durante uma viagem de regresso de Damasco para Alepo, ou possivelmente para sua propriedade em Cunacira, Omar adoeceu.[37] Morreu entre 5 e 10 de fevereiro de 720,[37] aos 39 anos,[38] na aldeia de Dair Simã, também conhecida como Dair Anaquira, nas proximidades de Maarate Anumane.[37] Omar havia adquirido ali um terreno com seus próprios recursos e foi sepultado na aldeia, onde ainda são visíveis as ruínas de seu túmulo, construído em data desconhecida.[37] Foi sucedido por Iázide II (r. 720–724).[23] Durante a Guerra Civil Síria, seu túmulo e santuário foram atacados duas vezes por milícias, e um dos ataques deixou o santuário quase completamente destruído. O local foi restaurado em 2025 pela Fundação Kalem, mediante acordo oficial com o Ministério dos Auqaf da Síria.[39]
Avaliação e legado
[editar | editar código]Segundo o historiador britânico Hugh N. Kennedy, as fontes tradicionais muçulmanas são unânimes em apresentar Omar como um governante piedoso, que governou como um verdadeiro muçulmano, em contraste com os demais califas omíadas, geralmente considerados usurpadores ímpios, tiranos e libertinos.[12] De maneira semelhante, Gerald Hawting observa que a tradição reconhecia Omar como um califa legítimo, enquanto os demais omíadas eram vistos como reis.[22] Para Hawting, essa distinção fundamenta-se parcialmente nos fatos históricos, bem como no caráter e nas ações de Omar. O historiador considera que todas as evidências indicam que Omar era um homem honrado e digno, além de um governante merecedor de respeito.[13] Sua reputação de piedade fez dele o representante muçulmano na célebre, embora provavelmente apócrifa, Correspondência entre Leão III e Omar II.[40] Essa reputação era reconhecida até mesmo pelos críticos mais ferrenhos da dinastia. O rebelde carijita Abu Hâmeza Almoquetar, por exemplo, absteve-se de condená-lo. Da mesma forma, os Abássidas, apesar de terem sistematicamente exumado e profanado os corpos dos califas omíadas anteriores, pouparam Omar II desse tratamento e também preservaram seus descendentes.[41] Em consequência dessa reputação e da curta duração de seu governo, é difícil avaliar as realizações de seu califado e suas motivações.[22] Kennedy considera Omar a figura mais enigmática entre os governantes maruânidas.[12] Segundo ele, Omar era um indivíduo piedoso que procurou resolver os problemas de sua época conciliando as necessidades de sua dinastia e do Estado com as exigências do Islão.[22] Na avaliação de H. A. R. Gibb, Omar procurou impedir o colapso do califado mediante a preservação da unidade dos árabes, a eliminação das queixas dos maulas e a conciliação da vida política com as exigências religiosas.[42]
Reconhecimento como Mádi
[editar | editar código]Antes e durante sua ascensão ao poder, Omar era amplamente considerado pelos círculos religiosos conservadores, especialmente em Medina, como o Mádi, o restaurador da justiça divinamente guiado.[43][44] Essa percepção estava estreitamente relacionada à sua descendência materna do califa Omar, cuja linhagem, segundo os estudiosos medinenses, estava destinada, conforme antigas profecias, a produzir um governante justo.[44] Tradicionalistas como Saíde ibne Almuçaíbe teriam identificado Omar com essa figura muito antes de sua ascensão ao califado.[43][44] Essa reputação também desempenhava uma função político-teológica ao contrapor-se às reivindicações rivais provenientes de Cufa, segundo as quais o líder esperado surgiria exclusivamente entre os álidas.[44] O imame xiita Maomé Albaquir é mencionado como tendo reconhecido que a figura aguardada pertencia aos abedexemecitas, na pessoa de Omar II.[44] Entretanto, nem todos os contemporâneos compartilhavam dessa interpretação. Em Meca, o tradicionalista Taus ibne Caiçane sustentava que, embora Omar fosse corretamente guiado, não correspondia à definição plena do Mádi, argumentando que a verdadeira era dessa figura seria caracterizada pela recompensa e pela punição absolutas.[44]
Família e descendentes
[editar | editar código]Após Omar ter sido convocado de volta a Damasco, em consequência da morte de seu pai, Abalmaleque ibne Maruane providenciou seu casamento com a própria filha, Fátima binte Abalmaleque.[2] Omar teve outras duas esposas: sua prima materna Ume Xuaibe, também chamada Ume Otomão, filha de Xuaibe ibne Zabane ou Saíde ibne Zabane, da tribo dos calbitas, e Lamis binte Ali, dos alharititas.[45] Segundo a análise do historiador Andrew Marsham, Omar teve catorze filhos, distribuídos igualmente entre suas esposas e concubinas.[45] Os relatos clássicos divergem quanto à relação completa de seus descendentes. A lista de filhos homens foi preservada principalmente por Aliacubi,[46] enquanto Ibne Sade apresenta uma relação diferente, com nomes alternativos.[47] Além disso, Atabari menciona um filho chamado Abalmaleque, que morreu antes do pai.[48]
Vários de seus descendentes alcançaram destaque político ou militar nas décadas posteriores ao seu reinado. Seu filho Abedalazize ibne Omar ibne Abedalazize exerceu o governo de Medina em 744, durante o califado de Iázide III.[49] Outro filho, Abedalá ibne Omar ibne Abdalazize, nascido de sua esposa calbita,[50] governou brevemente o Iraque em nome dos omíadas, antes de desertar para os carijitas e aliar-se ao líder Adaaque ibne Caice Axaibani. Abedalá atuou como governador de Adaaque em Uacite, no leste do Iraque e no oeste da Pérsia, enquanto Adaaque governava o oeste do Iraque a partir de Cufa. Posteriormente, Abedalá morreu na prisão do califa Maruane II, em Harrã.[51][52] A linhagem de Omar também sofreu com os expurgos abássidas, como demonstra o caso de seu neto Issa ibne Alualide, estabelecido no Egito, que foi executado pelos abássidas em 750, juntamente com vários parentes na Palestina.[53] Entretanto, seu filho Abedalazize conseguiu obter um amã (salvo-conduto ou garantia de proteção).[54]
Referências
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Bibliografia
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