Tensão de cisalhamento
Tensão de cisalhamento | |
|---|---|
| Outros nomes | tensão tangencial, tensão de corte, tensão cortante, tensão cisalhante |
| Símbolos | |
| Unidade no SI | pascal (Pa) |
| Expressões | |


A tensão de cisalhamento, também chamada tensão tangencial, tensão de corte, tensão cortante ou tensão cisalhante e frequentemente representada por , a letra tau do alfabeto grego, é a componente tangencial do vetor de tensão que atua sobre um plano material. Essa componente está contida no plano da seção considerada. A força interna resultante paralela à seção é o esforço cortante. A tensão normal, por sua vez, é a componente perpendicular ao plano.
Tensão de cisalhamento geral
[editar | editar código]A tensão que atua em um ponto de um plano material é definida como o limite da força distribuída sobre uma área quando essa área tende a zero. Separando a componente tangencial da força, a tensão de cisalhamento local pode ser escrita como[1]
Quando se conhece a força cortante resultante sobre uma seção de área , a tensão de cisalhamento média é[2]
A expressão coincide com a tensão local apenas quando a distribuição de tensão é uniforme. Em outros casos, como no cisalhamento transversal de vigas, a tensão varia ao longo da seção.
Outras formas
[editar | editar código]Tensão de cisalhamento na parede
[editar | editar código]A tensão de cisalhamento na parede é a componente tangencial da tração na interface entre um fluido e uma parede sólida. Para um fluido newtoniano em um escoamento simples junto a uma parede plana, com medido perpendicularmente à superfície, sua magnitude é[3] em que é a viscosidade dinâmica e é a velocidade do escoamento paralela à parede. O sinal depende da orientação adotada para os eixos e de qual lado da interface é considerado.
No fluxo sanguíneo arterial, valores baixos ou oscilantes da tensão de cisalhamento na parede estão relacionados ao processo aterogênico da aterosclerose.[4]
Cisalhamento puro
[editar | editar código]Em um estado de cisalhamento puro, atuam tensões de cisalhamento complementares sem tensões normais no sistema de eixos considerado. A deformação angular correspondente pode ser expressa pela deformação de cisalhamento .
Em uma geometria de cisalhamento simples, se duas faces inicialmente separadas por uma distância sofrem um deslocamento tangencial relativo , para pequenas deformações tem-se[5]
No regime elástico linear de um material isotrópico, a tensão e a deformação de cisalhamento relacionam-se por[5] em que é o módulo de cisalhamento. Para um material elástico linear isotrópico, em que é o módulo de Young e é o coeficiente de Poisson.
Tensor de tensões e cisalhamentos complementares
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Em um ponto de um meio contínuo, as componentes de tensão podem ser reunidas no tensor de tensões de Cauchy:[1]
As componentes diagonais são tensões normais e as componentes fora da diagonal são tensões de cisalhamento. Em um contínuo de Cauchy clássico, sem tensões de par, o balanço de momento angular torna o tensor simétrico. Desse modo,[1]
Esses pares são chamados tensões de cisalhamento complementares.
Nos planos principais, as componentes de cisalhamento são nulas. Se as tensões principais forem ordenadas como , a maior magnitude da tensão de cisalhamento no ponto é[1]
Cisalhamento em vigas
[editar | editar código]O cisalhamento em uma viga é a tensão de cisalhamento interna causada pelo esforço cortante. Nas hipóteses da teoria elementar de vigas prismáticas, sua distribuição é dada por[6] em que
- é o esforço cortante na seção considerada;
- é o momento estático da parte da área situada de um lado do ponto em que a tensão é calculada, em relação ao eixo neutro;
- é a largura da seção nesse ponto;
- é o momento de inércia de área de toda a seção transversal em relação ao eixo neutro.
A tensão de cisalhamento não é, em geral, uniforme na seção. Em uma seção retangular de largura e altura , a distribuição é parabólica. A tensão é nula nas superfícies superior e inferior e atinge o valor máximo no eixo neutro:[6]
A expressão também é chamada fórmula de Jouravski ou de Zhuravskii. Dmitri Jouravski publicou em 1856 um trabalho sobre a resistência de vigas que contém a relação que passou a levar seu nome.[7]
Torção
[editar | editar código]A torção de um eixo produz tensões de cisalhamento porque seções transversais vizinhas sofrem rotações relativas. Para um eixo circular submetido a torção elástica de Saint-Venant, dentro das hipóteses de pequenas deformações e comportamento elástico linear, a magnitude da tensão de cisalhamento varia linearmente com a distância ao eixo:[8] em que é o torque aplicado e é o momento polar de segunda ordem da seção transversal.
A tensão máxima ocorre na superfície externa, de raio :
Para uma seção circular maciça,
Essas expressões são próprias de seções circulares e tubos circulares. Seções não circulares apresentam empenamento e exigem outra formulação para a torção.[8]
Cisalhamento em estruturas semimonocoque
[editar | editar código]As tensões de cisalhamento em uma estrutura semimonocoque podem ser calculadas por modelos que idealizam a seção transversal como reforçadores longitudinais, responsáveis principalmente por cargas axiais, e paredes ou almas finas que transportam fluxo de cisalhamento.[9]
Em uma parede fina na qual a tensão de cisalhamento pode ser tomada como aproximadamente uniforme ao longo da espessura , o fluxo de cisalhamento satisfaz[10] e, portanto,
A maior tensão de cisalhamento ocorre onde a razão é maior. Um ponto de fluxo elevado não precisa coincidir com a maior tensão se a espessura também variar ao longo da estrutura.
Cisalhamento em solos
[editar | editar código]Estruturas de solo, como barragens de terra e diques, podem romper por cisalhamento. Sua estabilidade depende da resistência ao cisalhamento do aterro e da fundação. Quando a resistência da fundação é insuficiente, podem ser necessárias mudanças na geometria dos taludes, na sequência de construção ou na drenagem para controlar a consolidação e manter a estabilidade.[11]
Cisalhamento por impacto
[editar | editar código]Para o caso particular de impacto torsional de uma barra circular maciça que responde elasticamente, um balanço de energia fornece a tensão de cisalhamento máxima na forma[12] em que
- é a energia de deformação elástica armazenada na barra no instante de resposta máxima;
- é o módulo de cisalhamento;
- é o volume da barra.
Em um modelo sem dissipação, a energia mecânica fornecida ao eixo é convertida em energia de deformação no instante de máxima resposta. Se a energia inicial provém de um sistema em rotação, em que é o momento de inércia de massa e é a velocidade angular.
Se um torque constante também realiza trabalho ao longo de um deslocamento angular ,
No modelo idealizado,
Perdas por amortecimento, deformação plástica ou outros mecanismos dissipativos exigem um balanço de energia diferente.[12]
Tensão de cisalhamento em fluidos
[editar | editar código]Ver também: Viscosidade, Escoamento de Couette, Lei de Poiseuille, Produto profundidade-declividade, Cisalhamento simples e Tensão do vento.

Qualquer fluido real, inclusive líquidos e gáses, pode exercer uma tensão de cisalhamento tangencial sobre uma fronteira sólida. Nos casos em que se aplica, a condição de não deslizamento estabelece que a velocidade do fluido em contato com uma superfície sólida é igual à velocidade da própria superfície.[3][13] Para uma parede estacionária, a velocidade relativa do fluido na parede é zero.
Em escoamentos externos, a velocidade varia da velocidade da parede até a do escoamento externo através da camada limite. Em escoamentos internos, as camadas associadas às paredes podem ocupar toda a seção do conduto, de modo que a descrição por uma velocidade externa uniforme não se aplica da mesma forma.
Nos fluidos newtonianos, a tensão viscosa é linearmente proporcional à taxa de deformação. A viscosidade dinâmica é o coeficiente dessa relação para condições termodinâmicas especificadas.[3] Em um escoamento de cisalhamento simples, a relação reduz-se à proporcionalidade entre a tensão de cisalhamento e a taxa de cisalhamento. Essa relação é conhecida como Lei de Newton da viscosidade. Em fluidos não newtonianos, a relação entre tensão e taxa de deformação não precisa ser linear.
Para um escoamento newtoniano unidirecional paralelo a uma placa plana, no qual ,
Na parede,
Para um fluido newtoniano, isotrópico e incompressível, a parte viscosa do tensor de tensões é[3] em que é o tensor da taxa de deformação.
O tensor total de tensões é em que é a pressão e é o tensor identidade. Em um fluido newtoniano isotrópico compressível, a parte viscosa contém também um termo proporcional à divergência do campo de velocidades, .[3]
Medição com sensores
[editar | editar código]Sensor de tensão de cisalhamento por franjas divergentes
[editar | editar código]A relação entre a tensão de cisalhamento na parede e o gradiente de velocidade pode ser usada para medi-la. A. A. Naqwi e W. C. Reynolds desenvolveram um método de anemometria laser Doppler que usa duas ondas cilíndricas para medir o gradiente de velocidade próximo a uma superfície sólida.[14]
A interferência entre as duas ondas produz franjas cujo espaçamento aumenta com a distância à parede. Na região muito próxima à superfície, em que a velocidade varia aproximadamente de forma linear com essa distância, a frequência do sinal produzido por partículas que atravessam as franjas fornece o gradiente de velocidade. Conhecida a viscosidade dinâmica, esse gradiente pode ser convertido em tensão de cisalhamento na parede.[14]
Elementos ópticos difrativos permitem miniaturizar o princípio. Um sensor baseado em óptica difrativa, no qual partículas do fluido espalham luz ao atravessar um padrão de interferência, foi apresentado em 2000.[15]
Sensor de tensão de cisalhamento com micropilares
[editar | editar código]Outra técnica usa micropilares flexíveis de polidimetilsiloxano montados sobre a parede e projetados para penetrar na região viscosa próxima à superfície. As forças exercidas pelo fluido curvam os pilares. A deflexão de sua extremidade, depois de calibrada em um escoamento de cisalhamento conhecido, fornece uma medida da tensão de cisalhamento local na parede.[16]
Matrizes desses pilares também podem ser usadas para obter a distribuição bidimensional da tensão de cisalhamento sobre uma superfície.[17]
Método eletrodifusional
[editar | editar código]O método eletrodifusional usa microeletrodos sob condições de corrente limite de difusão para determinar o escoamento muito próximo de uma parede líquida. Uma diferença de potencial entre um ânodo de área relativamente grande e um pequeno eletrodo de trabalho que atua como cátodo produz uma reação de oxirredução. O consumo da espécie eletroativa na superfície da microsonda forma uma camada de difusão cuja transferência de massa depende do campo de velocidades junto à parede.
Soluções da equação de convecção e difusão permitem relacionar a corrente medida às propriedades difusivas da solução, à geometria da sonda e ao vetor de taxa de cisalhamento na parede. A formulação precisa depende da geometria do eletrodo e da direção do escoamento.[18]
Para um fluido newtoniano de viscosidade conhecida, a taxa de cisalhamento obtida por esse método pode ser convertida em tensão de cisalhamento na parede pela relação constitutiva newtoniana.
Ver também
[editar | editar código]- Esforço cortante, força interna resultante paralela a uma seção
- Cisalhamento (física), deformação produzida pelo deslocamento relativo entre partes de um material
- Cisalhamento simples, geometria elementar de deformação por cisalhamento
- Módulo de cisalhamento, constante elástica que relaciona tensão e deformação de cisalhamento
- Círculo de Mohr, representação gráfica da transformação das componentes de tensão
- Diagramas de força cortante e momento fletor, representação das solicitações internas ao longo de uma viga
- Ensaio triaxial, ensaio usado para determinar propriedades mecânicas de solos sob estados de tensão controlados
- Mecânica dos solos, área em que a resistência ao cisalhamento é usada na análise da estabilidade dos solos
Referências
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- 1 2 «Shafts: Torsion of Circular Shafts» (PDF). MIT OpenCourseWare. 2005. Consultado em 15 de setembro de 2026
- ↑ Odeh Dababneh; Altan Kayran (2014). «Design, analysis and optimization of thin walled semi-monocoque wing structures using different structural idealization in the preliminary design phase». International Journal of Structural Integrity. 5 (3): 214–226. doi:10.1108/IJSI-12-2013-0050
- ↑ «Transverse Shear in Beams: Summary and Further Reading». TU Delft OpenCourseWare. Consultado em 15 de setembro de 2026
- ↑ «General Design and Construction Considerations for Earth and Rock-Fill Dams» (PDF). U.S. Army Corps of Engineers. 30 de julho de 2004. Consultado em 15 de setembro de 2026
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