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Zé Arigó

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Zé Arigó
Nascimento18 de outubro de 1921
Congonhas
Morte11 de janeiro de 1971
Brasil
CidadaniaBrasil
Ocupaçãomédium, sensitivo, cirurgião
Causa da morteacidente rodoviário

José Pedro de Freitas (Congonhas, 18 de outubro de 1921 — 11 de janeiro de 1971) foi um médium curandeiro brasileiro. Era conhecido como "José Arigó" ou simplesmente "Zé Arigó".

Durante cerca de duas décadas, José Arigó alegadamente realizou cirurgias espirituais e outros procedimentos, geralmente em estado de transe e falando com sotaque alemão. Segundo seu próprio relato e o de seus biógrafos, Arigó afirmava estar incorporando o espírito de um médico alemão chamado Dr. Adolph Fritz, que teria morrido durante a Primeira Guerra Mundial. As cirurgias realizadas por Arigó eram atribuídas por ele e por seus seguidores à atuação desse espírito.[1][2]

A atuação de Arigó alcançou notoriedade no Brasil e no exterior, atraindo milhares de pessoas e despertando o interesse de médicos, pesquisadores e jornalistas. Suas atividades também deram origem a processos judiciais por exercício ilegal da medicina e curandeirismo. Em 1958, foi condenado a quinze meses de prisão, mas recebeu indulto do presidente Juscelino Kubitschek. Em um segundo processo, na década de 1960, foi novamente condenado e permaneceu preso durante vários meses.[3]

Biografia

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Juventude e matrimônio

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Um dos oito filhos do sitiante Antônio de Freitas Sobrinho e Maria André de Freitas, nasceu na Fazenda do Faria, a cerca de seis quilômetros de Congonhas. Os poucos recursos da família apenas lhe asseguraram os estudos até à terceira série do atual Ensino Fundamental, no Grupo Escolar Barão de Congonhas.

Em 1933, aos quatorze anos de idade, ingressou na Companhia de Mineração de Ferro e Carvão, posteriormente denominada Ferteco Mineração S/A e hoje incorporada à CVRD, onde trabalhou até 1942. Neste período ganhou o apelido que o acompanharia toda a vida: "Arigó", que tanto é uma gíria para ingênuo, bobo ou matuto, quanto um apelido dado aos trabalhadores que construíam estradas de ferro e engenhos[4]. Nomeado servidor do IAPTC, atual INSS, trabalhou na função pública até ao fim da vida.

Em 1944, então com vinte e cinco anos de idade, desposou Arlete Soares, sua prima em 4º grau, época em que deixou a casa dos pais. Da união nasceram seis filhos: José Tarcísio, Haroldo, Ery, Sidney, Leôncio Antônio e Leonardo José.

O início das atividades como curandeiro

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Por volta de 1950, Arigó começou a apresentar fortes dores de cabeça, insônia, percebendo visões (uma luz descrita como muito brilhante) e uma voz gutural (em idioma que não compreendia) que o fizeram acreditar encontrar-se à beira da loucura. A situação perdurou por cerca de três anos, durante os quais visitou médicos e especialistas, sem melhorias.

De acordo com seus biógrafos, certo dia, em um sonho nítido, a voz que o atormentava foi percebida por Arigó como pertencendo a um personagem robusto e calvo, vestido com roupas antigas e um avental branco, supervisionando uma equipe de médicos e enfermeiros em uma grande sala cirúrgica, em torno de um paciente. Após o sonho ter se repetido por várias vezes, o personagem apresentou-se como sendo Adolph Fritz, um médico alemão desencarnado durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), sem que tivesse completado a sua obra na Terra. Embora não pudesse compreender o idioma, compreendeu a mensagem que o personagem lhe dirigia: Arigó fora escolhido como médium pelo Dr. Fritz para realizar essa obra. Outros espíritos, de médicos e de enfermeiros desencarnados, os auxiliariam. Ainda de acordo com os seus biógrafos, Arigó acordou desse sonho tão assustado que saiu correndo, nu, aos gritos, ganhando a rua. Parentes e amigos trouxeram-no de volta ao lar, onde chorou copiosamente. Procurados, os médicos procederam a exames clínicos e psicológicos, sem encontrar nada de anormal, embora as dores de cabeça e os pesadelos continuassem. Até mesmo o padre da cidade tentou auxiliar, efetuando algumas sessões de exorcismo, sem sucesso.

A partir de então, uma força que Arigó reputava como "estranha" passou a utilizar-se de suas mãos rudes para manejar instrumentos também rudes, em delicados procedimentos cirúrgicos, no atendimento a enfermos e aflitos.

A prática mediúnica e a pesquisa científica

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Arigó possuía formação católica tradicional, e seu nome, a rigor, não se associa formalmente nem ao Espiritualismo nem ao Espiritismo. Apesar da desaprovação da Igreja Católica e das autoridades civis, Arigó fundou uma clínica à Rua Marechal Floriano, em Congonhas, onde chegava a tratar, gratuitamente, até duzentas pessoas por dia, oriundas da região e dos diversos estados do país, da América do Sul, da Europa e dos Estados Unidos. À época, Congonhas chegou a estar ligada a Buenos Aires (Argentina) e a Santiago do Chile por linha de ônibus direta e regular. Entre as dificuldades de ordem legal enfrentadas pelo médium, destaca-se o processo instaurado em 1956 pela Associação Médica de Minas Gerais, sob a acusação de prática de curandeirismo, e pelo qual foi condenado a quinze meses de prisão (1958); entretanto, teve a sua pena reduzida à metade e não chegou a ser preso, uma vez que recebeu indulto do então Presidente da República, Juscelino Kubitschek, cuja filha também havia sido atendida pelo médium, sendo-lhe diagnosticados dois cálculos renais. Anos mais tarde, responderia a novo processo, sendo condenado a 18 de novembro de 1964.[5] Desta vez, tendo compreendido o que era um indulto, recusou-o, sendo detido por sete meses em Conselheiro Lafaiete (MG), pelo exercício ilegal da medicina. Continuou a prática mediúnica mesmo dentro dos muros do presídio.[6]

Nessa época, o estadunidense Henri Belk, fundador de uma fundação para pesquisa de fenômenos paranormais, acompanhado por Andrija Puharich (ou Henry K. Puharich), especialista em bioengenharia, deslocaram-se até Congonhas, acompanhados por dois intérpretes da Universidade do Rio de Janeiro e por Jorge Rizzini, espírita brasileiro, para iniciar uma pesquisa com Arigó. Na ocasião, o Dr. Puharich teve extraído um lipoma de seu cotovelo esquerdo, em um procedimento indolor que durou apenas cinco segundos, executado com um canivete comum. A incisão de menos de 5 centímetros, com pouco sangue, não inchou (conforme documentado nitidamente em filme por Rizzini), vindo a cicatrizar completamente, sem infecção.

Arigó morreu em 11 de janeiro de 1971, em um acidente de carro na rodovia BR-040.[7]

A técnica

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Segundo relatos de médicos e de outras testemunhas, os procedimentos descritos incluíam intervenções oftalmológicas, como operações de pterígio, procedimentos nasais, drenagem de cistos sinoviais e extração de lipomas. O cirurgião Ary Lex, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, afirmou ter presenciado quatro intervenções realizadas por Arigó em aproximadamente meia hora: drenagem de um cisto sinovial, extração de dois lipomas e uma operação de pterígio. Segundo Lex, os procedimentos foram realizados sem anestesia, preparação cirúrgica ou assepsia convencionais, enquanto os pacientes permaneciam conscientes e afirmavam não sentir dor.[3]

Um dos procedimentos mais bem documentados ocorreu em 1963, quando o médico e pesquisador norte-americano Andrija Puharich submeteu-se a Arigó para a retirada de um lipoma localizado no braço, próximo ao nervo ulnar. A intervenção foi realizada com um canivete comum e filmada pelo pesquisador brasileiro Jorge Rizzini. Segundo relatos posteriores de Puharich e registros sobre o episódio, o procedimento durou apenas alguns segundos, resultando em uma pequena incisão, e o lipoma foi apresentado imediatamente após a intervenção.[8][9]

Além das intervenções físicas, Arigó realizava diagnósticos e prescrevia medicamentos. O cirurgião Ary Lex, embora tenha confirmado as operações que presenciou, criticou o receituário de Arigó, que considerava inadequado ou incomum do ponto de vista médico. O médico norte-americano Henry Belk, que acompanhou Puharich em uma investigação sobre Arigó, também recebeu uma prescrição para um problema crônico nas costas e posteriormente relatou melhora de suas dores.[9]

Os relatos sobre as intervenções de Arigó são de natureza diversa quanto à sua documentação. Algumas operações foram observadas diretamente por médicos, enquanto outras são conhecidas por relatos de pacientes ou de testemunhas. A existência desses relatos não constitui comprovação científica de que as intervenções ou as alegadas curas tenham origem paranormal.

Notas

  1. ↑ Pires, J. Herculano (1963). Arigó, um caso de fenomenologia paranormal. São Paulo: Francisco Alves
  2. ↑ Os médiuns de cura do século XX (Tese). Universidade Federal de São Carlos. 2026
  3. 1 2 Pires, J. Herculano (1976). Arigó: Vida, Mediunidade e Martírio. São Paulo: Edicel
  4. ↑ «Arigó». Michaelis On-Line. Consultado em 17 de setembro de 2021. Cópia arquivada em 1 de dezembro de 2023
  5. ↑ Franco, José (1964). «O feitiço contra o feiticeiro: Zé Arigó na prisão». www.memoriaviva.com.br. O Cruzeiro. Consultado em 4 de junho de 2018. Cópia arquivada em 23 de fevereiro de 2018
  6. ↑ PIRES, 1998.
  7. ↑ «Linha Direta - Zé Arigó». Globo.com. Consultado em 16 de agosto de 2021. Cópia arquivada em 24 de julho de 2026
  8. ↑ Fuller, John G. (1974). Arigó e o espírito do Dr. Fritz. [S.l.]: Harper & Row
  9. 1 2 «Arigo». Parapsychological Association / Psi Encyclopedia. Consultado em 13 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 7 de agosto de 2026

Bibliografia

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  • CARNEIRO, Victor Ribas. ABC do Espiritismo (5a. ed.). Curitiba (PR): Federação Espírita do Paraná, 1996. 223p. ISBN 85-7365-001-X
  • COMENALE, Reinaldo. "Zé Arigó", oitava maravilha. Belo Horizonte: Ed. Boa Imagem, 1968. 208p. il. [tradução de Enrique Martin Blanco; prefácio de Chico Xavier]
  • FULLER, John Grant. Arigo: surgeon of the rusty knife. New York: Thomas Y. Crowell, 1974. 274p. [prefácio por Henry K. Puharich, MD] ISBN 0690005121
  • NUÑEZ, Sandra. A Pátria dos Curadoresː Uma História da Medicina e da Cura Espiritual no Brasil. São Pauloː Pensamento, 2013. 216p.
  • PIRES, J. Herculano. Arigó: vida, mediunidade e martírio (4a. ed.). Capivari (SP): Eme, 1998. 193p. ISBN 8573530499
  • RENAULT, Frank. Médiuns, Espíritas e Videntes: seus segredos e poderes. Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint S/A, 1984. 112p. il.
  • OLIVEIRA, Leida Lúcia de. Arigó, O 13o. Profeta. São Paulo: Mythos Editora, 2010. 184p. ISBN 978-85-7867-056-6.
  • OLIVEIRA, Leida Lúcia de. Cirurgias Espirituais de José Arigó, Belo Horizonte: AME Editora, 2014. 512p. ISBN 978-85-63778-30-7

Ver também

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